terça-feira, 27 de março de 2018

1986, a série que faz pensar 2018





Estou sempre a dizer que gostava de ter vivido nos anos 80. Provavelmente não sobreviveria o tempo necessário para contar a história, uma vez que as mulheres ainda eram um ser doméstico. Não me considero doméstica o suficiente para apresentar, todos os dias, uma travessa catita de uma carne ou de um peixe supimpas à mesa familiar, como faria Maria de Lurdes. Por outro lado, aturar um marido autoritário e doente pela direita política, como o senhor Fernando, iria culminar num divórcio ao terceiro dia, conforme as escrituras (fica já aquela nota Pascal). 


Tirando os machismos e a democracia em construção, noto que, em termos de valores, se respirava um bocadinho melhor. As pessoas não eram permissivas, lutavam pelo o que acreditavam ser o correto. Hoje, o estômago anda revirado dos sapos a mais que as bocas comem, ou para não perder o emprego, ou para manter a casa com uma renda jeitosa, ou até para não perder o casamento, porque a solidão é pior do que um cônjuge que dá para os gastos. 


Nos anos 80 não havia redes sociais. As pessoas esforçavam-se para estar com os amigos, com os namorados e com a família. Sobretudo, havia diálogos profícuos. Mal ou bem, as pessoas comunicavam em 4D e aprendiam com as opiniões umas das outras. Até o Eduardo e o senhor Fernando se esforçavam para discutir em direto e em tempo real. O conhecimento era adquirido por meios físicos (um livro era um livro, não era um eBook, um disco era um disco, não era uma faixa disponível em plataformas digitais, um filme era um filme... Visto no cinema ou através das cassetes dos clubes de vídeo, não era um ficheiro AVI disponível em 1080p) e os passatempos incentivavam a descoberta e a formação de talentos (a criação de uma rádio pirata, a produção de música e a difusão de ensinamentos acerca do universo e da política). Hoje, as pessoas esqueceram os seus sonhos e a sua vocação para ir para um curso superior que dê dinheiro futuramente e que lhes assegure uma vida confortável e hedónica. 


Nos anos 80, ainda havia espaço para pensar sobre a informação que ia chegando pelos jornais, pelo cinema e pelos livros. Hoje, apesar da quantidade de informação com que somos bombardeados, somos fúteis, mesquinhos e profundamente superficiais. A fartura enjoa e, ao contrário do que seria esperado, não somos mais inteligentes nem mais bem formados. Apegamo-nos a coisas insignificantes e disparamos ódio e frustração nos comentários das redes sociais. 


Nos anos 80, as pessoas vestiam cores garridas, os penteados eram volumosos, os óculos ocupavam grande parte do rosto, a maquilhagem era extravagante e as roupas eram mais largas. Não era crime misturar rosa com vermelho, ganga com ganga ou preto com preto e mais preto. Hoje, a polícia da moda está cada vez mais atenta e as almas mais desleixadas (as que não vestem cores nude, não estão na tendência ou não optam por algo mais ''edgy'' mas não tão ''edgy'' assim) levam com um grande meme na internet. 


Nos anos 80, gostava de saber se o senhor Fernando sobreviveu aos mandatos do bochechas, se a Alice suavizou o mau feitio do Eduardo, se o Tiago e a Marta superaram as suas diferenças, se a Marta seguiu o seu sonho, se a Patrícia ainda tem a alma negra, se o Sérgio já perdeu a virgindade, se o Gonçalo deixou de ser cabecinha de alho chocho, se o Tó continuou com a Boa Onda e se a Dona Conceição deixou de colocar o comando ao pé da televisão. Em 2018, espero que o Nuno Markl dê continuidade a esta história que me fez rir e acreditar num presente mais reivindicado e menos nude. 



Escrito por Susana Ferreira.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Michael, o anti-Narciso


Resultado de uma educação rigorosa, vendo-se privado das brincadeiras típicas da idade, Michael passou a sua vida a dedicar-se exclusivamente à carreira que consolidou a partir da formação do grupo The Jackson 5.


Fonte: http://i.vimeocdn.com/video/461850961_1280x720.jpg



A sofrer desde criança de vitiligo, doença que lhe causava manchas na pele,  viu o seu corpo a ganhar diferentes tonalidades.

Obrigado a partilhar o crescimento com os irmãos, teve de ignorar os seus envolvimentos furtivos no quarto que com eles partilhava.

Quisera a sorte que fosse não o melhor cantor do grupo mais o que melhor se sabia expressar através da dança, valendo-lhe o lugar de destaque.


Fonte: https://cdn-images-1.medium.com/max/480/1*2Ys4WLgXbnk90LBE7-qxpA.gif


A alegria e à vontade no palco ocultariam a melancolia de não viver como as outras crianças e o trauma de um nariz que o pai lhe fez crer ser demasiado grande e por tal não ter sido influência da genética paterna.



Aquando da ribalta, já como cantor a solo, decide rodear-se da meninice que nunca teve e constrói a "Neverland". Um sítio mágico, bem ao lado da sua mansão, onde permitiu que grupos de crianças enfermas desfrutem de um dia de pura diversão.


Fonte: http://dasartes.com/wp-content/uploads/2017/11/michael-jackson-1160x770.jpg



A sua causa era essa, assegurar cuidados a crianças que deles necessitassem, e por isso muita foi a ajuda disponibilizada a instituições e a casos particulares.


Fonte: http://3.bp.blogspot.com/WUGxu7Mt6xE/UTer8P1UJQI/AAAAAAAAq9I/gjQX4mjIX8g/s1600/michael
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Casado pela primeira vez com Lisa Marie Presley, e na sequência das acusações de abuso sexual, o matrimónio tem fim um ano depois e especula-se que se tratasse de uma relação planeada e vivida imaturamente.

Sempre confrontado com a questão da sexualidade, reprime-se, sentindo-se a vergonha em abordar o tema, o que causa a dúvida em volta da sua virgindade.

O mesmo parece confirmar o facto de ter dois filhos de uma mulher que o auxiliou como enfermeira e ainda um terceiro, de mãe incógnita, colocando-se em causa a sua intervenção física nas conceções.

Fonte: http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2009/06/29/article-0-0583B1CD000005DC-754_468x411.jpg


A sua ligação com as crianças é por ele explicada também como reflexo da ausência da infância, no entanto as relações estabelecidas com aquelas que visitavam o seu parque de diversões particular levantaram suspeitas.

Chocado com elas e frizando sempre o seu extremo amor e afeição pelas crianças e incapacidade de as magoar, foi levado a julgamento e acabou por pagar uma fiança de modo a por termo à situação, referindo que o mesmo não confessava a sua culpa, simplesmente acabaria com a polémica.

O tema que constantemente o fazia capa de revistas e motivo de paródia era a sua diferenciada aparência. Rejeitando as inúmeras cirurgias que lhe apontavam, referia que a tonalidade clara se dava à doença de pele de que padecia e o nariz teria sido corrigido pelo facto de tê-lo partido numa das suas atuações.

É fácil acreditar na pessoa que contraria todas as especulações à sua volta, em algumas torna-se inevitável crer e descrer: ele não dormia numa cama de oxigénio para se manter jovem, ele não comprou os ossos do falecido "Homem Elefante". Contudo, sim a sua imagem só se justifica como fruto de muitas cirurgias, as maçãs do rosto estão alteradas, ou seja, as operações não resultam apenas da correção feita ao nariz.


Fonte: https://www.capitalfm.co.ke/lifestyle/files/2016/08/Michael-Jackson.jpg






Mas a verdade é que tudo o resto toca na verdade, porque assistimos à defesa de um ser tão frágil física como psicologicamente, que apesar de negar, se quis afastar da aparência inicial, que se tornou um trauma.

Um homem reprimido, o anti-Narciso que jamais se apaixonou por si mesmo ao ver-se refletido e o eterno Peter Pan que sorria e falava de forma ingénua e que mesmo enquanto adulto tinha de ser entretido pela cozinheira, que só dessa forma conseguia que ele se alimentasse.


Fontes: https://i.pinimg.com/564x/75/d9/cf/75d9cfc93df9a633ec1770d64d4de88a--archangel-michael-michael-jackson.jpg
http://www.grioo.com/images/rubriques/7/21020.jpg




Escrito por Mariana Pinto

segunda-feira, 12 de março de 2018

O bella ciao

Questa mattina mi sono alzato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao





É difícil que esta música ainda não se encontre alojada, em loop, no teu cérebro. Desde que a série La casa de papel explodiu na Netflix e, consequentemente, nas redes sociais, que todos recebemos um ímpeto de força e, mesmo os mais tímidos, sonham com a flor da Resistência.


Fonte: http://www.imdb.com/list/ls027122650/mediaviewer/rm4098109696



La casa de papel conta a história de um assalto perfeito à Casa da Moeda de Madrid. Desenganem-se os que estão a pensar que os roubos de alta escala são um dos grandes clichés do cinema e que, por isso, vem aí mais do mesmo, embrulhado num papel festivo castelhano. A perfeição deste empreendimento é milimétrica, exigiu cinco meses de estudo intenso e uma vida de idealização.


El profesor, o líder do projeto, recruta oito ladrões de elite para levar a cabo o maior golpe monetário europeu. Proibidos de manter relações ou de partilhar informações sobre a vida privada, são atribuídos aos profissionais nomes de grandes cidades do mundo. Assim, Tóquio, Nairóbi, Moscovo, Rio, Denver, Berlim, Helsínquia e Oslo, depois de completarem a formação de cinco meses, vão de fato vermelho, armas e máscaras de Salvador Dalí tomar o edifício madrileno. Não pretendem matar ou torturar os reféns que fizerem, uma vez que um dos objetivos principais deste plano é criar uma linha ténue entre a definição de «bons» e de «maus». 


Quando entram na Casa da Moeda, formam grupos de reféns e delegam tarefas a cada um deles: uns vão imprimir e embalar dinheiro, mais precisamente 2,4 mil milhões de euros, outros vão fazer escavações para, mais tarde, facilitar a fuga dos oito assaltantes. Para que as máquinas imprimam notas de cinquenta euros que jamais poderão ser rastreadas, o roubo teria de se estender a onze dias. O tempo é, literalmente, dinheiro para El profesor e, como tal, a polícia teria de ser ludibriada vezes sem conta, ou com pistas falsas ou com pequenos mimos, até as engrenagens produzirem a última nota. 


Asseguro que a genialidade deste magno plano vos vai tirar o sono. O meu pai que o diga. As séries nunca foram a sua paixão, contudo La casa de papel fez com que ele se deitasse às duas da manhã, durante uma semana. A minha mãe agradece os roncos que ficaram por ouvir. Por outro lado, lá praticava o seu castelhano com umas tiradas como esta: «Raquel, yo soy un hombre de suerte!», enquanto dava pulos de êxtase (resultado da adrenalina) no sofá. 


A vontade do espectador é que os assaltantes, dotados de um espírito sonhador, consigam a liberdade e sejam um símbolo de Resistência contra a corrupção política, de grandes entidades ou de empresas. Apesar de roubarem uma grande quantidade de dinheiro, este não pertence a ninguém, já que foi fabricado ex nihilo. De outro modoa corrupção que assola a economia dos principais estados mundiais, tira o pão ao peixe que vai ficando cada vez mais miúdo.  



Fonte: https://i.ytimg.com/vi/cQYvQIrM1FY/maxresdefault.jpg



Escrito por Susana Ferreira.