segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

À parte

Foto de Leonor Lourenço. 


Em pequena, antes de entrar para a escola primária, sempre me conheci assim: sozinha a desenhar, em casa da minha avó. Estraguei-lhe tantos guardanapos para desenhar, quando ela não tinha folhas de papel por casa! Coitada. Depois, lá se vergou e começou a comprar-me blocos de desenho. Também prescindia das revistas para eu aproveitar as margens e todos os outros espacinhos lisos. 

Para desagrado da minha ansiedade social, lá tive de ir uma temporada para o A.T.L, antes de entrar efetivamente no ensino básico. Como fiquei com saudades da casa da minha avó e dos guardanapos dela! No A.T.L havia muitos filmes da Disney e muitas crianças para brincar, mas eu lá encontrava uma mesa à parte para desenhar nas folhas A3 e pintar com marcadores grossos que deslizavam muito bem. Enfim, coisas requintadas que as creches facilitam às crianças! Ao menos tinha material luxuoso, coisa que a minha avó nem sonhava.

Quando já estava na escola, lembro-me de insistir com a minha tia para desenhar noivas e princesas. Ela tinha tanto jeito e eu adorava contemplar o traço da verdadeira artista. Ela ficava tão aborrecida por desenhar sempre o mesmo... Mas eu precisava de ver! Só para apanhar o jeito e desenhar as minhas próprias bonecas! Também queria fazer vestidos compridos e penteados armados. Daí em diante, quando as aulas não tinham assim tanto interesse, eu pegava numa folha de rascunho e desenhava as minhas bailarinas e princesas. Foi assim até à faculdade.

Na faculdade, optei por desenhar árvores com formas abstratas e cornucópias, contudo não me podia distrair porque eu gostava de tirar muitos apontamentos e passar a todas as cadeiras. Mesmo assim, ainda se encontram uns rabiscos graciosos nas folhas universitárias pautadas.

Por algum motivo, o desenho sempre me acompanhou, mas eu nunca o acompanhei a ele. Resgatava-o, uma vez por outra, quando precisava ou quando me queria abstrair. 

Recentemente, a minha tia (a das noivas e das princesas) desafiou-me para integrar os grupos de desenho que ela costuma frequentar. Ela é, sem dúvida, uma artista. Eu sou uma curiosa que gosta muito do que está a aprender. E aprende-se muito! Estar rodeada de erudição e de sensibilidade é uma espécie de nirvana. Já sei que se devem evitar os pormenores e o uso excessivo da borracha; que desenhar ao ar livre permite ter uma conceção de espaço muito maior e que dá calo, pois as condições atmosféricas e os distratores próprios da natureza alargam a nossa capacidade de raciocínio e de concentração; e que desenhar é para todos! Um dos artistas que integra o grupo disse muito sabiamente: «Se também aprendemos a escrever, aprendemos a desenhar!» Afinal, os nossos ancestrais começaram pelo desenho e, só muito depois, apareceu a escrita. 

Até à data compareci a dois encontros, um no Motoclube de Coimbra, dinamizado pelo grupo MoSk - Montemor Sketchers, e outro em Porto de Mós, organizado pelo grupo LeSk - Leiria Sketchers. O ambiente é muito saudável, de partilha de ensinamentos e de experiências. Mesmo que as criações não corram como gostariam, é importante não ter vergonha de mostrar, porque só assim se pode absorver mais conhecimento. 

Parece que agora me volto a sentar numa mesa à parte, onde estão mais pessoas sozinhas a rabiscar com canetas bonitas.


Fotos do meu caderno de desenho. Ultimamente, tenho estado dedicada à fauna e à flora. 



Encontro MoSk no Mototurismo do Centro. A minha primeira mota. 



Porto de Mós, Leiria. Encontro LeSk. 


Castelo de Porto de Mós, Leiria. Encontro LeSk.


Os desenhos que consegui neste dia.

Se tiverem curiosidade, pesquisem estes grupos de desenho no Facebook!  aqui e aqui



Escrito por Susana Ferreira. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma análise de "Alice no País das Maravilhas"

O livro Alice no País das Maravilhas tornou-se alvo de inúmeros estudos por parte da Psicologia, da Psicanálise, da Neurociência e ainda da Linguística.


O facto de Alice percecionar os tamanhos de maneira distinta, ora crescendo ora diminuindo, de forma a conseguir passar pela porta que a levará ao jardim, foi um sintoma declarado por várias crianças quando analisadas pelos psiquiatras. A conclusão passou por uma atividade anormal nos lóbulos parentais que, no entanto, se revela inofensiva, trata-se de um processo designado de micropsia.


Fonte: http://www.alice-in-wonderland.net/wp-content/uploads/tall-alice-2.jpg



Em muitos momentos, a personagem depara-se com seres e objetos que mudam de forma, como é o caso do gato cujo corpo se desvanece mais rápido do que o sorriso. A neurociência avaliou esta situação fazendo a analogia com os sonhos, onde temos a necessidade de conservar as memórias. As imagens poderiam fazer parte de uma pintura surrealista, tal a aparente desconexão dos elementos.


Fonte: https://www.walldevil.com/wallpapers/w03/940943-alice-in-wonderland-cats-cheshire-cat.jpg



Também ao nível da semântica, a obra se revela profícua, no sentido de que a correção gramatical do poema que Alice recita contrasta com a falta de sentido das palavras.

«Era briluz. As lesmolisastouvas.
roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.»

(Poema "Jabberwocky", tradução de Augusto de Campos)



Assim os neurocientistas constataram que o cérebro processa de forma independente o significado e a gramática.



- O meu nome é Alice, mas...
- Que nome tão estúpido - interrompeu com impaciência Humpty Dumpty.
- Um nome tem de significar alguma coisa? - perguntou Alice timidamente.
- Claro que sim! - disse Humpty com um sorriso seco - O meu significa exatamente a forma que eu tenho (uma forma, por certo, muito formosa). Tu, em contrapartida, com um nome assim podes ter qualquer forma.


Deste modo, a neurociência que considerava os sons de cada palavra arbitrários, conclui que de facto o significado (conceito, corresponde ao conteúdo) da palavra pode estar relacionado com o seu significante ("imagem acústica", trata-se da cadeia de sons da palavra).


- É um tipo de memória muito pobre a que só funciona para trás - retorquiu a rainha.
- De que tipo de coisas se recorda melhor? - aventurou-se Alice a perguntar.
- Oh, as coisas que ocorrem na semana que vem depois da seguinte. - respondeu a rainha num tom despreocupado.


Tendo em conta este diálogo, considerou-se que a memória pode agrupar passado e futuro e as próprias recordações podem auxiliar na projeção das ideias vindouras.



- Não vale a pena tentar. - disse Alice - Não se pode acreditar em coisas impossíveis.
- Atrevo-me a dizer que não tens muita prática - respondeu a rainha - Quando tinha a tua idade fazia-o durante hora e meia. Às vezes conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.

Na verdade, os psicólogos entendem que as crianças que se prestam à atividade imaginativa tendem a ser mais criativas e desenvolvem assim mais facilmente as suas capacidades cognitivas.



*


Além de todas as reflexões e ensinamentos que a obra-prima de Lewis Caroll disponibiliza às áreas referidas, ela oferece inspiração nas suas diversas personagens para as fantasias da celebração carnavalesca. Eu inspirei-me na inigualável Rainha de Copas:





Auxílio científico de artigos do site http://observador.pt/


Escrito por Mariana Pinto

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Quem tem um pai tem tudo

Quem tem uma mãe tem tudo, mas quem tem um pai... Tem tudo e uma mão cheia de historietas caricatas. Hoje decidi contar-vos três situações em que o meu pai é a personagem principal, como ele gosta. 






1.

O Leonel, o nosso cão, não come sempre a mesma marca de ração ou de alimento húmido. Há que aproveitar os preços baixos e, a dada altura, a minha mãe optou por comprar um patê, em forma de chourição, para o canídeo degustar. O Leonel degustava e bem. No entanto, o chourição era grande e, como o magnânimo de pêlo louro não o podia comer, evidentemente, de uma vez, eu guardava aquela espécie de enchido no frigorífico, envolvido num saco de conservação. 

Certo dia, estavam os meus pais no seu leito, quando eu ouço esta troca de bitaites:

- Credo! Mas que hálito é esse?? - diz a minha mãe.

- Olha também não percebo! É daquela mortadela ou chouriço que tu compraste !!! Ainda por cima sabe mesmo mal!! - remata o meu pai. 

Quando soube que a ''mortadela'' fazia parte da dieta diária do Leonel, o meu pai virou o jogo e disse que ''estava a brincar'', que não tinha comido nada daquilo! Claro! 




2. 

Um dia destes, o meu pai decidiu introduzir um cotonete no ouvido para regularizar a sua higiene pessoal. Tudo muito bem, pois cada um tem de cuidar da sua. Todavia, há momentos que não requerem objetos pontiagudos numa zona delicada, como quando estamos com pressa ou à espera de alguém. 

Estavam o meu pai e o seu cotonete, em casa do meu avô, à espera que eu e a minha mãe chegássemos. Quando parece ouvir o barulho do carro da minha mãe, o quinquagenário esquece, por momentos, que tem um cotonete introduzido na orelha e vai, à varanda, confirmar se era o veículo da esposa. Efetivamente, era. Olvidado do seu amigo cotonete, o meu pai sente uma comichão dentro da orelha. Pensando que é uma mosca, acha por bem dar uma palmada. Como seria de esperar, a palmada fez com que o cotonete entrasse, de rompante, e conhecesse o tímpano. 




3.

O meu pai pela-se por uma boa doença. Padece de diabetes (tipo 2) e, há dois meses, de uma lesão na perna. Quando lhe disseram que aquela lesão era semelhante a uma que o Luisão do Benfica sofreu, ficou em pulgas e limpou o stock de Voltaren da farmácia local. Finalmente, tinha uma doença com glamour. Mas sabem como é, o barulho das luzes seduz, porém não é tudo. A diabetes é a doença que faz palpitar o seu coração e que está sempre lá para o apoiar. 

Por algum motivo, os valores da diabetes subiram um pouquinho. Nada de alarmante. Contudo, para o meu pai, trata-se de um momento solene. Se a diabetes o traiu com um ou dois valores acima do pretendido, ele decide montar uma barricada à diabetes: beber água com vinagre de sidra todos os dias, ao longo do dia. Agora, andam copos e garrafas de água com vinagre por toda a casa.

Por engano, bebi com toda a pujança três goles daquele néctar divino. 

- Ai que horror! Quem é que pôs isto aqui?? - disse eu.

- Que horror?!?! Só te faz é bem!!! - diz o meu pai. 


Conclusão, o meu pai quer matar a diabetes dele, a minha e a da aldeia inteira. 




Escrito por Susana Ferreira.