quarta-feira, 24 de outubro de 2018

YOU 👀📚

Eu sei, eu sei... Já lá vai uma eternidade... Não há desculpas! Estas evitam-se, mas a série que vos trago... Façam de tudo para a ter nas vossas vidas, o quanto antes. (Mesmo!)

Quis o universo que eu me formasse em Letras, contudo a primeira opção que escrevi lá na folhinha de ingresso para a universidade era Psicologia. Não sei se esse é que era o caminho certo ou se, nesta altura, já seria demasiado lúcida para o meu gosto. Enfim, possibilidades que não foram exploradas, no entanto, nada que um bom thriller psicológico não resolva.

A mente humana é aquela caixinha que, quando menos se espera, nos brinda com um palhaço maroto e bêbedo de mola. Mais tarde ou mais cedo, a mola dá de si e quase nos esbofeteia com essa figura sinistra do circo.

A série que vos apresento, YOU, versa sobre um rapaz que, claro está, não tem a mola afinada. Joe é um fulano muito interessante: dono de uma livraria, conversa inteligente, atencioso, humor clássico, low profile. O nosso protagonista conhece Beck, uma moça bonita e igualmente culta, quando a jovem estudante de Literatura se dirige à loja para adquirir uma obra de renome. À primeira vista, ambos ficam fascinados um pelo outro, passarinhos chilreiam, as personagens riem em slow motion e trocam olhares profundos. Tinha tudo para dar, não tinha? Tinha, não fosse o nosso Joe obsessivo e exímio na arte do stalk.



Fonte:https://cdn-images-1.medium.com/max/1600/1*ZEplP22VfhZhEX2dnhqDyw.jpeg


Apesar de ser um perseguidor na verdadeira aceção da palavra, o caráter de Joe não é linear. Há, efetivamente, comportamentos reprováveis que violam a lei de uma ponta à outra, porém o lado sensível e cortês também se manifesta. É-nos dado um vilão next door que controla a amada pelas publicações e pelas mensagens que constam das redes sociais, uma vez que, na sociedade moderna, a verdade encontra-se sempre online. A insegurança e a falta de amor próprio, fazem com que Joe extrapole os limites da grande teia e ataque, fisicamente, os obstáculos que afrontam a felicidade de Beck. Por outro lado, como referi, o diagnóstico de perseguidor maníaco não impede Joe de ser uma boa referência para os que o rodeiam.


Fonte:https://www.austinchronicle.com/binary/46a2/ATX-you.jpg


E aqui entra a velha história ''nem os bons são tão bons, nem os maus são tão maus'' (A Mariana já escreveu sobre este assunto. Leiam.). Para além de orientar o vizinho Paco para as boas leituras e para o mundo imaginário, também o consola do drama de violência doméstica que existe dentro do lar. De modo a preservar a infância do garoto, vai, aos poucos, plantando-lhe o gosto pelos livros.


Fonte:http://images6.fanpop.com/image/photos/41400000/
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Com Beck, esmera-se para ser o namorado perfeito, dando-lhe tempo e incentivando a jovem a aperfeiçoar as suas capacidades de escrita. Enquanto isso, nos bastidores, vai eliminando as amizades e as relações frívolas que impedem Beck de manter uma vida pessoal saudável e um percurso académico imaculado. Todavia, Joe mostra-se um vilão sem plano: age por impulso, fia-se no raciocínio rápido de ocasião, na sua atitude de romance de cavalaria e na audácia. O espectador fica à beira de um ataque de nervos, já que o livreiro, desajeitado, nunca é apanhado por um triz. Sim, é possível que se sintam culpados pelo facto de desejarem, secretamente, o êxito de Joe. 😉

Bom, sendo a mente humana uma surpresa, devo aguçar a vossa curiosidade dizendo que o protagonista não é o único que esconde segredos. Numa sociedade plástica, a bondade fica a meio do caminho e cede, o outro meio, ao medo, à frustração e ao supérfluo. É neste momento que o palhaço de mola se solta da caixa.

YOU será constituída por dez episódios, exibindo, esta semana, o sétimo capítulo. Aconselho vivamente, para uma reflexão acerca do mundo tecnológico, das relações de amor e de amizade (num tempo onde tudo se partilha nas redes sociais) e da nossa pegada digital.





Escrito por Susana Ferreira. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

As Aventuras Épicas do Capitão Cuecas


Para os fãs, regozijem, a Netflix tratou de trazer uma adaptação da famosa banda desenhada com o mesmo nome, desenvolvida pela DreamWorks Animation. A série é também baseada no filme, lançado em 2017, Capitão Cuecas O Filme.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/e/e0/The_Epic_Tales_of_Captain_Underpants.png




Os dois rapazinhos irrequietos, George e Harold, constantemente dispostos a pregar partidas, acabam sempre por ser severamente repreendidos pelo diretor da escola, o Sr. Krupp. Este torna-se o personagem das histórias em banda desenhada que os dois criam. A surpresa acontece quando inexplicavelmente a figura ganha vida, o Sr. Krupp transforma-se em Capitão Cuecas. A partir daí, desdobrar-se-à entre o exigente e maldisposto diretor e o herói pronto a solucionar as situações mais mirabolantes da escola. 



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Assim, enquanto são alvo do ódio do Sr. Krupper, que já os colocou de parte, George e Harold conseguiram a proeza de fazer com que o Capitão Cuecas saltasse das páginas e se apresentasse como um protagonista aparentemente patético mas que se redime do seu papel real e odioso. 


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Peço que se desconhecem, se deixem envolver por estas aventuras, e revivam um pouco do espírito tenro que nos deve acompanhar e animar no decorrer dos anos 😊



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Escrito por Mariana Pinto
    

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Get Out - Os monstros são todos humanos


Chris e Rose seriam um casal comum aos olhos da sociedade se a cor de pele não os distinguisse automaticamente. E esse é o motivo que faz Chris temer a visita aos pais dela. 

O receio parece desvanecer quando a família o recebe de braços abertos, embora tenha de tolerar a tentativa fracassada do pai de Rose ser engraçado e a obsessão do irmão pela sua destreza física. 

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A mãe, que se mostra muito gentil, convence Chris a experimentar uma sessão de hipnoterapia para curar o seu vício de tabaco. Contudo aproveita para o fazer revisitar um acontecimento do passado que o martiriza até ao presente. 

Fonte: https://metrouk2.files.wordpress.com/2018/03/get-out.jpg


Ele acaba por se intrigar com a empregada e o caseiro da casa, tentando interagir com os dois, Chris constata a estranheza das duas figuras, percebida nos gestos e no próprio discurso. 

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Fonte: https://cdn-images-1.medium.com/max/800/0*82qF7pVhPo-182tQ.


A reunião anual da família acontece e serve para adensar a apreensão de Chris que é alvo da atenção de todos, os mesmos que elogiam o seu porte físico e destacam as qualidades da raça negra. 

Sentindo-se ímpar, Chris tenta socializar com alguém que parece reconhecer. No entanto, as roupas e a forma como se comporta não se adequam com a pessoa que conhecia. A certa altura, quando Chris desconfiado, tenta fotografá-lo, o indivíduo altera-se e dirigindo-se a Chris, diz: 


— Foge!


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Este acontecimento faz com que Chris decida ir embora. Ele explica a estranheza das situações a Rose que tenta acalmá-lo. Não conseguindo demovê-lo, os dois preparam-se para partir. 


Mas não será assim tão fácil, já que como Chris sempre suspeitou a fixação com os negros tem uma explicação, mais sórdida do que ele e nós espetadores poderíamos imaginar e que nos faz pensar até onde pode chegar a deformidade da mente humana. 

A questão é



Quem dá mais?

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Escrito por Mariana Pinto

sábado, 28 de julho de 2018

Sharp Objects 🔪

Fonte: https://i.imgur.com/oYcyl6A.jpg:large



Camille Preaker (Amy Adams) vive numa espécie de purgatório. Esse lugar difuso situa-se, neste caso, em Chicago. Profissionalmente, Camille é uma jornalista que cumpre as suas obrigações, no entanto é impossível esconder o cheiro profundo a Vodka e o aspeto desleixado com que se apresenta no quotidiano. A motivação é pouca, mas a bebida e o Ipod lá desempenam a máquina. 



Frank Curry, o editor do jornal St. Louis Chronicle, é daqueles patrões com um coração no lugar do coração. Raro. Percebendo que a subordinada Preaker está a cavar um buraco cada vez maior, tira-a do purgatório e envia-a para o inferno, que é como quem diz, Wind Gap. Curry julga que o melhor para a sua jornalista é voltar ao lugar onde nasceu, para junto da família, resolver os assuntos pendentes. Assim sendo, incumbe-a de investigar assassinatos de crianças que estão a suscitar a curiosidade dos populares. 




Fonte: http://www.magazine-hd.com/apps/wp/wp-content/uploads/2018/06/sharp-objects.jpg



Muito contrariada, Camille assente a decisão. Quando chega a Wind Gap,... O espectador é surpreendido. Para além de nos aparecer uma cidade com contornos místicos, aparece-nos uma família bem peculiar. A mãe, Adora Crellin, é a figura mais caricata: é como se uma Hippie se fundisse com a Cruella de Vil ... Obtemos uma maldade encoberta com a premissa de ''paz e amor''. Ora dança, ora arranca umas pestanas dos próprios olhos, ora se mostra desolada com as vítimas da cidade, ora controla Camille até à exaustão, ora brinca com a filha mais nova às casinhas de bonecas. Note-se que Amma, a irmã mais nova de Preaker, já é quase uma mulher feita, mas ainda põe uns vestidos rodados, um laço no cabelo e distrai-se com umas Barbies. Muito estranho, não é?



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Fazendo-se acompanhar por uma garrafinha de álcool, a jornalista lá vai trabalhando nos casos que assombram a região. De dia, entrevista algumas testemunhas e, de noite, escreve os textos encomendados. Pelo meio, o espectador fica desconfiado de que há algo superior que, certamente, justifica os litros e litros de Vodka. Antes de Amma, a irmã mais nova de Camille era Marian Preaker, que morreu aos onze anos. Marian vai aparecendo em alguns flashbacks, sobressaltando Camille. Aos poucos, vamo-nos apercebendo da culpa e da tristeza que a jornalista sente por causa desta tragédia tão prematura. 



Wind Gap devolve os fantasmas a Camille. Por mais que peça ao seu editor para regressar a Chicago, este diz que ainda não é o momento certo. É no final do primeiro episódio desta minissérie da HBO que conhecemos a verdadeira adição da personagem principal: a automutilação. As camisolas de manga comprida (faça chuva ou sol), a admiração pelos ditos ''objetos afiados'', o pouco cuidado com o aspeto físico e a bebida escondem palavras que foram gravadas ao longo de todo o corpo, com agulhas, parafusos e mais. Entre essas palavras, encontram-se os títulos de cada um dos oito episódios da série. 



A prestação da Amy Adams está sublime e o argumento, para além de retratar uma doença muito sensível, não deixa de envolver o espectador em mistério e numa aura quase sobrenatural. Se, por um lado, queremos que Camille se mantenha focada e que não ceda aos desejos de morte e à voz interior que a faz odiar-se, por outro lado, ansiamos que se descubra o responsável pelos homicídios das diversas crianças. Eu cá já tenho as minhas suspeitas e recomendo que vejam e que partilhem comigo as vossas. 😊 Já sinto muitas nomeações para o lado da Amy! 🏆




Escrito por Susana Ferreira. 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Leviano 🍊

Os cartazes direcionam, desde logo, a atenção do espectador para o mistério e para a sensualidade que o filme parece prometer. Na verdade, os corpos húmidos e os olhares de reserva, num Algarve abundante em citrinos e em paisagens famosas pelos seus vários tons de azul, entreabrem um argumento protagonizado por um velho duo: a luxúria e a cobiça. 


Fonte: https://m.media-amazon.com/images/M/MV5BZGYyMmM4OWItMThkMy00ZTg0L
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A família das mulheres Paixão, composta pela matriarca Anita e pelas suas três filhas adolescentes (Carolina, Júlia e Adelaide), inicia a película dando uma entrevista acerca de um caso bicudo que espoletou um ano antes da cena de abertura. As mulheres vestem preto, mostram-se cabisbaixas, mas recetivas a falar sobre tudo o que aconteceu à jornalista Teresa Leite (um bocadinho inspirada, segundo o realizador Justin Amorim, na apresentadora Cristina Ferreira).



Fonte: https://m.media-amazon.com/images/M/MV5BOTJmNGYzMGQtMTZlYy00Mzg3LWFhOWQtZDY5Mzc4MDM3NDJ
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Um ano antes, assistimos a uma Anita a passar pela crise de meia idade. A completar 50 anos, a mulher que deveria ser a líder da família e o símbolo da ordem e do respeito apresenta-se como uma menina rabina, crente de que a vida são rosas, paz, amor e um jovem futebolista de corpo esculpido, de falinhas mansas e de sorriso maroto. Longe de aceitar a idade que a matemática dita, a matriarca decide fugir com a sua conquista para parte incerta, deixando as filhas sem rede.


Carolina (que lê a Bíblia para enganar o despertar da sua sexualidade) e Paula (cujo único vício é mesmo um cigarro de vez em quando), ainda que frágeis, lá se orientam sozinhas. Não faltam às aulas e seguem, naturalmente, as regras do jogo. Por outro lado, Adelaide (19 anos) é a verdadeira dinamite de toda a trama.


Adelaide demonstra pouco interesse pela escola e pela trivialidade. Faz o que pode para desalinhar o chacra da mãe, já que reprova a vida fútil e ociosa que Anita leva. Por sua vez, é visível a inveja que nutre pela beleza e pelos namoricos da mesma. Em suma, Adelaide é uma laranja (o fruto rei do Algarve e o fruto proibido em Leviano): bonita, perfumada e apetecível, porém moída cedo demais. Com a ânsia de perceber o que é o amor e de entrar em competição com a mãe e com as irmãs, a adolescente atravessa momentos conturbados. A cobiça que pauta o seu carácter gera a revolta e a infelicidade que assombram a família Paixão no presente.


Decididas, as irmãs vão em busca da progenitora. Pelo caminho, como em todos os caminhos, as jovens tropeçam nos próprios pecados e em situações rocambolescas que fazem prever o final trágico e imprudente, como não poderia deixar de ser.


Confesso que a fotografia e a banda sonora me cativaram logo. A meu ver, são as laranjas de Eva deste filme. No que diz respeito à atuação, destaco os quatro elementos femininos principais (Anabela Teixeira, Diana Marquês Guerra, Alba Baptista e Mikaela Lupu) e, no masculino, aquela aposta quase sempre ganha a fazer papéis de rufia, José Fidalgo.


Gosto de acompanhar o cinema português e fico muito orgulhosa quando deixo a sala e trago uma mensagem para casa. Ainda que, por vezes, apresentada de forma ''leviana'', a película faz-nos pensar acerca do senso de justiça, das relações familiares e amorosas, da predisposição para comportamentos rebeldes e as suas consequências e, sobretudo, acerca da inveja... Que é, como diria Boss AC, «um sentimento muito feio».


E vocês ? Já viram ou têm interesse no filme?



Escrito por Susana Ferreira. 


quinta-feira, 12 de julho de 2018

A Raven está de volta! 👁

Sim, eu sei. Já faz mais de um ano que a Raven voltou, mais crescida, e com uma família maior. Não vi logo os novos episódios porque, na verdade, estava com medo de que o meu ''eu'' de 2018 rejeitasse a nova Raven e apagasse as boas memórias da Raven de 2002. Contudo, já estou a par de toda a situação!

Antigamente, a box da TV Cabo (que, posteriormente, evoluiu para ZON e, hoje em dia, conhecemos como NOS) tinha muitos canais de valor acrescentado. O Disney Channel era um deles. Cá em casa, tínhamos o pacote mais pequeno de canais e, adicionar o Disney Channel, aumentava significativamente o custo da mensalidade desta nova forma de ver televisão.

Um vez por festa, a TV Cabo deixava todos os canais em aberto durante algumas horas e, no melhor cenário, durante alguns dias. Não imaginam a alegria que eu e a minha irmã sentíamos ao marcar o número 40 no telecomando e, graças a falhas no sistema ou a manobras de marketing, lá aparecia a House of Mouse, a Kim Possible, a Brandy e o Mr. Whiskers e, à noite, That's so Raven!!




Fonte: https://i0.wp.com/espalhafactos.com/wp-content/uploads/2017/04/8c6ba46e-7d47-4ff5-9112-2207ac47b5d4-1477584869.jpg?resize=759%2C500&ssl=1





🎵 If you could gaze into the future (future)
You might think live would be a breeze (Life is a breeze)
Seeing trouble from a distance (yeah) (go rae)
But it's not that easy (oh no) 🎵




A Raven era muito divertida, confiante, gostava de arte, mais especificamente de design de moda (na altura, esta também era a minha profissão de sonho 😃), e tinha uma habilidade especial: previa o futuro. Durante o episódio, Raven tinha sempre uma visão. Se esta fosse boa, a protagonista e a sua melhor amiga Chelsea fariam de tudo para assegurar que se iria concretizar; se, pelo contrário, a visão fosse um mau agouro, as companheiras prontificavam-se para fintar o futuro. 


Depois de muitas peripécias, tudo acabava bem e a lição que o petiz espectador deveria aprender era que, mesmo para quem tem superpoderes, a vida não é perfeita e nada é exatamente como idealizamos. Ao longo dos cem episódios (sim, foi talvez a mais longa série do Disney Channel) da Raven de ''primeira fase'', somos cativados pela roupa criativa que veste, pelos seus desfiles de perucas e pelos tempos de comédia certeiros de Symoné. 



Fonte: https://3.bp.blogspot.com/-8bNFzRXE5ro/WomzL86zN1I/AAAAAAAABww/AkXiRjdl8hYJYyCNAcvLRLPgIIId009pQCLcBGAs/s1600/1000x405-Q100_6d230a52d8adbb21aa9fabe613e8763a.jpg


Fonte:https://www.tvinsider.com/wp-content/uploads/2017/10/146690_0046_R2-1014x570.jpg



Como referi, a lição a retirar é que a vida não é perfeita. A ''nova fase'' da Raven vem comprovar isso mesmo e sublinhar que a criatividade e a persistência são as virtudes essenciais que devemos cultivar. Os casamentos de Raven e Chelsea não correram bem e as amigas, agora na casa dos trinta e com filhos, estão longe de trabalhar no que sonharam. Raven é designer de moda canina e Chelsea, que outrora fez sucesso na publicidade, está desempregada e sozinha, já que o marido lhe roubou uma pequena fortuna. 


De modo a combater as dificuldades financeiras e a restabelecer a alegria e o divertimento, as amigas decidem viver juntas, com as suas crianças. O apartamento de Raven abriga, então, Chelsea e o pequeno génio economista Levi. O foco está mais voltado para a criançada, uma vez que um dos gémeos Baxter partilha o superpoder da mãe. Agora temos visões em dose dupla, mães à beira de um ataque de nervos, mas que continuam cool e a praticar os seus moves, mais perucas, moda para cães e tentativas desesperadas de manter a ordem no caos. 


Para mim, a Raven sempre terá muita piada. Lembro-me perfeitamente das cenas que me fizeram rir nos idos de 2002, 2003 ou 2004... Agora, a gargalhada é mais difícil. A comédia não me assenta tão bem como o drama, mas com umas bainhas e uns apertos... Vai lá! A atitude de diva continua e a espirituosidade também. A meu ver, das melhores séries que a Disney fez nos últimos tempos. Julgo que é muito importante mostrar, aos mais novos, modelos e padrões diferentes de sucesso, de corpo e de confiança. Em suma, diversidade.


P.s. Sei que é errado, mas continuo a querer ter o poder da Raven. Porém, tal como a filha dela, vou tentar dedicar-me mais à lógica das coisas. Este é o meu último post com 25 anos (😟😅 ) e, com o avançar da idade, estou a perder a esperança de que as visões algum dia apareçam. 👁




Escrito por Susana Ferreira. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Por favor, não fiques com o meu homem

Pois, e estais agora vós à espera de um texto onde eu discorra sobre um profundo desgosto amoroso. Não vos deixeis iludir que o meu génio não pende para esses devaneios. Contudo, para vosso gaudio, deixo a informação de que o sucesso de vendas Prometo Falhar estará brevemente nos cinemas portugueses. E aí tereis a extrema epifania no que toca aos lugares (parvos) comuns do amor. Tal como o autor, também eu prometo algo, PROMETO NÃO VÊ-LO.



Depois deste desabafo, precisava de partilhar isto, vamos ao que aqui me traz. Já confessei que o titulo do texto é enganador, mas amigo(a)s o mundo é dos espertos, então arquitetei a melhor forma de vos persuadir a fazer este clique. No entanto, não foi escolhido apenas com essa intenção, nem o meu TOC me deixaria.


Ora então, como tudo tem de ter uma explicação lógica na minha mente, selecionei um dos versos do refrão da música que se tornou um grande ópio para mim recentemente. A letra não tem qualquer elo de ligação à minha situação, porém há algo na sonoridade que me faz ouvi-la imensas vezes por dia.


Fonte: https://i.ytimg.com/vi/Ym12hnB7oZo/hqdefault.jpg



Partindo deste facto, constato algo que já havia verificado, o efeito intenso da música na vida de cada um. E o mais engraçado, a forma como existem músicas que se adequam a determinados momentos. Dependendo da disposição, vamos revisitando diferentes músicas.


No meu caso, a alegria contagiante faz-me ouvir Pabllo Vittar ou Ivete Sangalo e afundar-me na vertente do funk. Já a nostalgia obriga-me a ir ao encontro dos dilemas amorosos da Amy Winehouse ou das reflexões metafóricas dos Imagine Dragons.


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Fonte: https://78.media.tumblr.com/4f22caf4cccf7483cb4d0767aa3e5341/tumblr_oiv3tulxiv1qhmwdpo1_500.gif



Sem dúvida que as melodias nos despertam emoções e felizmente são anticorpos no combate a profundos rasgos de tristeza. Há até aquelas que nos fazem sentir poderoso(a)s, transportam-nos de imediato para o cenário do videoclipe e alto lá para a nossa representação exímia.



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Escrito por Mariana Pinto

sábado, 30 de junho de 2018

À grande e à realeza

Ontem, a minha avó perguntou-me se eu lhe podia explicar como fazer um ensopado de cabrito. Ai ai ... Eu nem sei fazer o IRS, quanto mais um ensopado de cabrito. A única coisa que eu sei fazer bem é encher a barriga de séries e, por isso mesmo, estamos aqui hoje.

Não sei se comem cabrito, mas que apreciam uma boa lagosta e uma boa caçada, disso não tenham dúvidas. Falo, especificamente, da rigorosa Rainha Isabel II e do opulento Luís XIV. Nunca percebi muito bem a admiração das pessoas pela família real britânica e, como tal, decidi ver a famosa série da Netflix - The Crown. Não ficando saciada com os vinte episódios do drama de corte, decidi aventurar-me por mais uns trinta de Versailles

Sempre me senti um pedacinho à margem da história da senhora que, publicamente, envergava umas fatiotas garridas e uma mala preta clássica que, segundo me informei, é obra da casa Launer. Quis erradicar essa ignorância e assistir ao sucesso que está a ser The Crown




Fonte:https://4.bp.blogspot.com/-OECOQ0Q7Vvo/WlIg7kRKm7I/AAAAAAAAErE/M2ZWv5uPeQA3DoclDZ3jolR1TtBMDCFZQCLcBGAs/s
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A série arranca em 1947, quando do casamento da futura rainha com Philip, duque de Edimburgo. O casamento ia bem, Carlos e Ana cresciam saudavelmente e Elizabeth estava longe de pensar que o seu pai, George VI, tinha os dias contados. O rei omitiu vários problemas de saúde, incluindo o cancro de pulmão, que acabou por ser fatal. O triste desfecho apanhou Elizabeth, na altura hospedada no Quénia, de surpresa. Muito contra a sua vontade e contra o curso natural das leis de sucessão, Elizabeth torna ao Reino Unido já rainha. 

Elizabeth comporta a atitude e a frieza de raciocínio necessários a este cargo, contudo, num mundo dominado por homens, é importante tomar precauções, de modo a não ser ludibriada e a exercer a política mais justa e adequada ao seu povo. 

Maravilhosamente interpretada por Claire Foy, Elizabeth vai aprendendo a dançar conforme a música, sem nunca abandonar a retidão e a eminência do seu dever. Todos podem opinar, mas só a Coroa pode decidir. A sua frigidez é, muitas vezes, posta à prova, deixando Elizabeth entregue à solidão. No entanto, as inseguranças que, pontualmente, a atormentam são afastadas pela vontade de cumprir as obrigações que lhe foram atribuídas. 


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Se, por um lado, estou muito ansiosa por ver a chegada de Carlos à juventude e, evidentemente, a entrada de Diana em Windsor, por outro lado, vou ficar com muitas saudades das personagens que conhecemos até agora, já que o elenco principal vai ser renovado (devido às suas idades). Pois é, parece que agora vamos conhecer uma rainha mais madura! Adeus, Claire... 😪



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Bom, como não tenho meias medidas, lá fui eu até França para ver os bastidores da corte do Rei Sol. Realmente, fiquei encandeada com a beleza do palácio de Versailles e com a vida privada dos nobres que nele habitam. Se em The Crown a privacidade e a intimidade da rainha são tratadas com muita delicadeza e algumas pinças (não é de bom tom roçar sequer a ''ofensa'' aos visados, uma vez que ainda desempenham funções), em Versailles tudo é realismo. Das cenas de matança até às cenas de nudez, senti uma relação muito próxima com Game Of Thrones

Já podem imaginar que é tudo à grande, não é verdade? Temos um Luís que precisa de descarregar a sua virilidade, comprando mais uma peça de mobiliário lá para casa (leia-se Versailles), ordenando uma ida caprichosa à guerra ou, simplesmente, deitando-se no seu leito com uma moça gira que se passeie pelas redondezas. A rainha fica muito afrontada, mas isso de pouco lhe serve, pois uma mulher, naquela época, era sinónimo de uma aliança com outro país ou de um objeto que assegurava a linha de sucessão. 

Podem esperar sangue, lágrimas, envenenamentos, conspirações contra o magnânimo, crueldade e suor. Todavia, quero realçar a minha personagem favorita de todo este cenário trágico: Philippe d'Orleans, o irmão rebelde do rei. Homossexual e com gosto pelo transvestismo, Philippe é a frescura da série. Ainda que o seu coração bata por Chevalier, o duque não esquece os seus deveres. Para além de ser honesto e amigo das mulheres que desposou, é um estratega nato. As suas investidas militares conferem glória a França e deixam Luís invejoso. E, como é óbvio, é com esta personagem que podemos soltar as poucas gargalhadas da série. 


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Uma mais altiva, a outra mais acutilante... Porém, as duas altamente recomendáveis. Ah! Já me esquecia! Há um bónus. Na terceira temporada de Versailles, vamos poder ver a atriz portuguesa Benedita Pereira no papel de uma nobre.   😉 Esperamos ansiosos. 





Escrito por Susana Ferreira.

sábado, 23 de junho de 2018

Vamos ver a bola?



Fonte: https://www.abola.pt//img/fotos/ABOLA2015/FOTOSLUSA/mundial2018/selecao/ronaldomarrocosEPA1.jpg



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Antes de mais, desculpem este interregno de mais de dois meses. Aconteceu muito fait divers do bom neste espaço temporal que merecia a nossa melhor atenção, no entanto, a vida interpõe-se nas melhores ocasiões e, como tal, há que cortar as cabeças de Hidra que nos surgem. 

O festival da canção já lá vai, o casamento real britânico também e a primavera encavalitou-se no verão, furaram os dois a porta de S. Pedro, calçaram o samba no pé e deram-nos um clima tropical. Todavia, o nosso jardim está mais do que viçoso e abençoado para o grande acontecimento das próximas semanas: o mundial de 2018. Durante noventa minutos, o país dá pausa à máquina e vai à rua ver a bola.

Ver futebol em comunidade é uma experiência social e tanto! Se o Eça voltasse ao mundo dos vivos, saltavam-lhe o monóculo e a cartola com tanto sumo criativo que a sociedade contemporânea fornece.

As ruas ficam frouxas, empapadas e pachorrentas do calor, mas o campeonato da Rússia veio dar aquele safanão nas costas e arrebitar os transeuntes. Há telas espalhadas pela cidade, que projetam a bola em direto. Se, por um lado, há quem estique a hora de almoço para dar um apoiozinho sentido à seleção, por outro lado, há quem aproveite para ir torrar a paciência dos apoiantes dedicados com publicidade. Vai uma publicidade às festas do Avante, vai mais um panfleto do ginásio que está a fazer umas promoções bombásticas para corpos bombados, vai mais um cartão da agente imobiliária que tem lá casas empatadas para despachar e vai mais um folheto daquelas empresas que ninguém sabe para que servem, mas que têm sempre umas miúdas super produzidas a tirar selfies para o Instagram. Os likes aumentam e o sol alcança a potência máxima.

O Portugal x Marrocos está quase a começar e a música ambiente continua a tocar «Coração não tem idade (toda a noite)», do Toy. O pessoal começa a ficar impaciente para ver a entrada dos jogadores em campo e para cantar, com toda a pujança, o hino nacional. Contudo, ainda há tempo para as meninas do tal ginásio fazerem mais uma publicidade à entidade empregadora. Desta vez, o DJ aposta forte no funk «Onda onda» para uma pequena demonstração de uma daquelas aulas de zumba (fica a hesitação na categorização de ''zumba'', já que agora as aulas de ginásio têm muitos nomes e muitos derivados; enfim, será qualquer coisa entre zumba pump, zumba body ou pump-step-zumba-body-fitness) super animadas.

Atrás de mim, surge um daqueles senhores que já acumulou três a quatro maços de cigarros no bucho até às 13h da tarde. De carteira à cintura (outrora desprezíveis, agora trend), solta um assobio que traça um caminho de vento (e talvez de perdigotos) no meu cabelo, previamente saído do salão de cabeleireiro. Lá vão onze euros para o galheiro! Lamento a rima que acabei de fazer e o que o homem proferiu depois. Um chorrilho de bitaites desagradáveis, por forma a que o DJ acabasse com a onda, o tubarão, a prancha, as meninas, o ginásio e as danças. O DJ obedeceu e cantou-se o hino nacional.

Uns de mão no peito e outros com a mão no cabelo para verificar se havia ou não gotas de saliva alheia no risco ao lado.

Dá-se o pontapé de saída e, cinco minutos depois, o Ronaldo marca o primeiro. Luís XIV achava que era o rei sol e que Deus o tinha escolhido para grandes feitos. Não acredito em Deus, mas a escolher, Deus teria escolhido Cristiano Ronaldo certamente, dada a força, concentração e transcendência que exibe no relvado.

O resto do jogo é muito pouco brilhante. Batem-se palmas às defesas de Rui Patrício, aos cortes de Fonte e às investidas de Cristiano, no entanto critica-se a performance de João Moutinho e a ausência de Quaresma em campo. A seleção Marroquina é teimosa, no que diz respeito às caneladas, e Portugal fica desorientado. Ainda assim, a vitória foi conseguida e, apressadamente, os adeptos mais fervorosos vão manifestar a sua opinião de bancada, em direto, nas cadeias de televisão presentes.

Os restantes desligam a pausa e a euforia. Uma nação regressa ao trabalho. Os aglomerados dispersam-se. A calçada, agora solitária, recebe a tarde abafada e lenta. As ruas voltam à sua placidez.



Escrito por Susana Ferreira. 

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O problema dos aerossóis




Se querem sentir «a boa vibe, o feeling positivo a pairar no ar» (eu sei, aquele clássico de Ângelo César Firmino, a.k.a Boss AC, que passou, algures, nos momentos Morangos com Açúcar das nossas vidas), não venham ter comigo. Sim, eu sou a rainha do drama, aquela pessimista incurável (não me tragam incensos, carrinhas pão de forma ou tiras florais para a cabeça, porque a minha alma é mais a puxar para o gótico), a pessoa que conta sempre com o pior para, em caso de ocorrência, saber lidar com ele:

- O mundo acabou!!!! Os oceanos estão a invadir a terra, os vulcões entraram em erupção, os edifícios começaram a ruir, as pessoas encontram-se soterradas, há explosões e tornados por toda a parte,!!
- Oh, grande novidade. Já estava a contar com isso... - Digo eu, enquanto bebo o meu último chá de frutos vermelhos e espero pela mulher da gadanha. 

Eu, que sempre gostei de tudo certinho, trigo limpo, farinha amparo, percebo, um dia, que a vida me diz: 

- Ai é? Gostas de tudo perfeitinho, sem pontos dúbios ou falhanços de magnitude histórica? Então, vou-te dar um presente vai cair muito bem com esse teu pensamento! 

E foi assim que a vida me orvalhou com um aerossol que contaminou o meu ser: a ansiedade. 


Eu, que gosto de tudo perfeitinho, comecei a duvidar de cada passo que dou, refaço e desfaço o passo, analiso e reanaliso, escrevo e rescrevo. O botão 'backspace'' passou a ser o meu melhor amigo, contudo é angustiante não existir essa tecla no mundo real. Era ótimo poder desfazer algumas conversas, gestos, momentos, deslocações ou mesmo certos períodos de tempo. Era um alívio poder fazer com ''nada disto (seja lá o que for) tivesse acontecido'' e avançar, agora com mais sabedoria e experiência, com pé e mira certeiros, sem nódoas em pano branco. 


Regra geral, não tenho muita simpatia por pessoas. Não ao ponto de me tornar o próximo Jack, o estripador, todavia a minha energia baixa quando estou rodeada de aglomerados de gente, barulhos dispensáveis, atitudes estrambóticas ou conversas envernizadas, frívolas e superficiais. Fico com sono, dentro da minha cabeça balança-se a Miley (sentada numa bola de destruição gigante, a partir-me as gavetas todas) e a minha paciência fica nauseada. 


A exposição pública tornou-se numa de espécie camião TIR. E eu não tenho carta de pesados. Boca seca, mãos trémulas (tão trémulas que quando a colher chega à boca, já vai desprovida de sopa*)  e calor, muito calor. Como diz a avó de uma amiga minha, fica tudo muito ''queimoso''. 


*obrigada por esta laracha que tão bem proferiste ontem, irmã. 


Medo de não conseguir realizar tarefas que, para os demais, são básicas. Lembram-se daquele jogo das naves espaciais do Nokia 3310? No final de cada nível aparecia sempre um mostro que tínhamos de derrotar, atirando o dobro das munições. Por algum motivo, esse monstro ainda mora, algures, num dos quartos de hóspedes do meu cérebro. 


Por outro lado, imaginem lá que estão muito bem, a admirar a beleza natural que têm à vossa frente, mas, repentinamente, pousa uma mosca na vossa mão. Essa mosca completamente aleatória e inocente orienta a memória individual a longo prazo para um momento embaraçoso, confrangedor e corrosivo do passado. Que agradável. 


Bom, a pouco e pouco vou aprendendo a viver com estes singelos entraves que foram adicionados ao meu regular quotidiano. Porque, já sabem como é, se não a podes vencer, junta-te a ela, porém sempre desconfiando. Não me sujem é os tapetes do carro! Migalhinhas, coisinhas miúdas, pedrinhas, ervinhas... Fazem-me confusão. O ideal era mesmo andarem com sacos de plástico nos pés. Na verdade, é indiferente se sujam ou não, ou se foi só uma pedrinha ou uma migalhinha porque, quando chegar a casa, vou pegar na invenção mais extraordinária dos últimos tempos - o aspirador portátil - e sorver tudo até ao último ácaro. Não se preocupem, o problema não são vocês, sou eu. 





Escrito por Susana Ferreira.

terça-feira, 27 de março de 2018

1986, a série que faz pensar 2018





Estou sempre a dizer que gostava de ter vivido nos anos 80. Provavelmente não sobreviveria o tempo necessário para contar a história, uma vez que as mulheres ainda eram um ser doméstico. Não me considero doméstica o suficiente para apresentar, todos os dias, uma travessa catita de uma carne ou de um peixe supimpas à mesa familiar, como faria Maria de Lurdes. Por outro lado, aturar um marido autoritário e doente pela direita política, como o senhor Fernando, iria culminar num divórcio ao terceiro dia, conforme as escrituras (fica já aquela nota Pascal). 


Tirando os machismos e a democracia em construção, noto que, em termos de valores, se respirava um bocadinho melhor. As pessoas não eram permissivas, lutavam pelo o que acreditavam ser o correto. Hoje, o estômago anda revirado dos sapos a mais que as bocas comem, ou para não perder o emprego, ou para manter a casa com uma renda jeitosa, ou até para não perder o casamento, porque a solidão é pior do que um cônjuge que dá para os gastos. 


Nos anos 80 não havia redes sociais. As pessoas esforçavam-se para estar com os amigos, com os namorados e com a família. Sobretudo, havia diálogos profícuos. Mal ou bem, as pessoas comunicavam em 4D e aprendiam com as opiniões umas das outras. Até o Eduardo e o senhor Fernando se esforçavam para discutir em direto e em tempo real. O conhecimento era adquirido por meios físicos (um livro era um livro, não era um eBook, um disco era um disco, não era uma faixa disponível em plataformas digitais, um filme era um filme... Visto no cinema ou através das cassetes dos clubes de vídeo, não era um ficheiro AVI disponível em 1080p) e os passatempos incentivavam a descoberta e a formação de talentos (a criação de uma rádio pirata, a produção de música e a difusão de ensinamentos acerca do universo e da política). Hoje, as pessoas esqueceram os seus sonhos e a sua vocação para ir para um curso superior que dê dinheiro futuramente e que lhes assegure uma vida confortável e hedónica. 


Nos anos 80, ainda havia espaço para pensar sobre a informação que ia chegando pelos jornais, pelo cinema e pelos livros. Hoje, apesar da quantidade de informação com que somos bombardeados, somos fúteis, mesquinhos e profundamente superficiais. A fartura enjoa e, ao contrário do que seria esperado, não somos mais inteligentes nem mais bem formados. Apegamo-nos a coisas insignificantes e disparamos ódio e frustração nos comentários das redes sociais. 


Nos anos 80, as pessoas vestiam cores garridas, os penteados eram volumosos, os óculos ocupavam grande parte do rosto, a maquilhagem era extravagante e as roupas eram mais largas. Não era crime misturar rosa com vermelho, ganga com ganga ou preto com preto e mais preto. Hoje, a polícia da moda está cada vez mais atenta e as almas mais desleixadas (as que não vestem cores nude, não estão na tendência ou não optam por algo mais ''edgy'' mas não tão ''edgy'' assim) levam com um grande meme na internet. 


Nos anos 80, gostava de saber se o senhor Fernando sobreviveu aos mandatos do bochechas, se a Alice suavizou o mau feitio do Eduardo, se o Tiago e a Marta superaram as suas diferenças, se a Marta seguiu o seu sonho, se a Patrícia ainda tem a alma negra, se o Sérgio já perdeu a virgindade, se o Gonçalo deixou de ser cabecinha de alho chocho, se o Tó continuou com a Boa Onda e se a Dona Conceição deixou de colocar o comando ao pé da televisão. Em 2018, espero que o Nuno Markl dê continuidade a esta história que me fez rir e acreditar num presente mais reivindicado e menos nude. 



Escrito por Susana Ferreira.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Michael, o anti-Narciso


Resultado de uma educação rigorosa, vendo-se privado das brincadeiras típicas da idade, Michael passou a sua vida a dedicar-se exclusivamente à carreira que consolidou a partir da formação do grupo The Jackson 5.


Fonte: http://i.vimeocdn.com/video/461850961_1280x720.jpg



A sofrer desde criança de vitiligo, doença que lhe causava manchas na pele,  viu o seu corpo a ganhar diferentes tonalidades.

Obrigado a partilhar o crescimento com os irmãos, teve de ignorar os seus envolvimentos furtivos no quarto que com eles partilhava.

Quisera a sorte que fosse não o melhor cantor do grupo mais o que melhor se sabia expressar através da dança, valendo-lhe o lugar de destaque.


Fonte: https://cdn-images-1.medium.com/max/480/1*2Ys4WLgXbnk90LBE7-qxpA.gif


A alegria e à vontade no palco ocultariam a melancolia de não viver como as outras crianças e o trauma de um nariz que o pai lhe fez crer ser demasiado grande e por tal não ter sido influência da genética paterna.



Aquando da ribalta, já como cantor a solo, decide rodear-se da meninice que nunca teve e constrói a "Neverland". Um sítio mágico, bem ao lado da sua mansão, onde permitiu que grupos de crianças enfermas desfrutem de um dia de pura diversão.


Fonte: http://dasartes.com/wp-content/uploads/2017/11/michael-jackson-1160x770.jpg



A sua causa era essa, assegurar cuidados a crianças que deles necessitassem, e por isso muita foi a ajuda disponibilizada a instituições e a casos particulares.


Fonte: http://3.bp.blogspot.com/WUGxu7Mt6xE/UTer8P1UJQI/AAAAAAAAq9I/gjQX4mjIX8g/s1600/michael
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Casado pela primeira vez com Lisa Marie Presley, e na sequência das acusações de abuso sexual, o matrimónio tem fim um ano depois e especula-se que se tratasse de uma relação planeada e vivida imaturamente.

Sempre confrontado com a questão da sexualidade, reprime-se, sentindo-se a vergonha em abordar o tema, o que causa a dúvida em volta da sua virgindade.

O mesmo parece confirmar o facto de ter dois filhos de uma mulher que o auxiliou como enfermeira e ainda um terceiro, de mãe incógnita, colocando-se em causa a sua intervenção física nas conceções.

Fonte: http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2009/06/29/article-0-0583B1CD000005DC-754_468x411.jpg


A sua ligação com as crianças é por ele explicada também como reflexo da ausência da infância, no entanto as relações estabelecidas com aquelas que visitavam o seu parque de diversões particular levantaram suspeitas.

Chocado com elas e frizando sempre o seu extremo amor e afeição pelas crianças e incapacidade de as magoar, foi levado a julgamento e acabou por pagar uma fiança de modo a por termo à situação, referindo que o mesmo não confessava a sua culpa, simplesmente acabaria com a polémica.

O tema que constantemente o fazia capa de revistas e motivo de paródia era a sua diferenciada aparência. Rejeitando as inúmeras cirurgias que lhe apontavam, referia que a tonalidade clara se dava à doença de pele de que padecia e o nariz teria sido corrigido pelo facto de tê-lo partido numa das suas atuações.

É fácil acreditar na pessoa que contraria todas as especulações à sua volta, em algumas torna-se inevitável crer e descrer: ele não dormia numa cama de oxigénio para se manter jovem, ele não comprou os ossos do falecido "Homem Elefante". Contudo, sim a sua imagem só se justifica como fruto de muitas cirurgias, as maçãs do rosto estão alteradas, ou seja, as operações não resultam apenas da correção feita ao nariz.


Fonte: https://www.capitalfm.co.ke/lifestyle/files/2016/08/Michael-Jackson.jpg






Mas a verdade é que tudo o resto toca na verdade, porque assistimos à defesa de um ser tão frágil física como psicologicamente, que apesar de negar, se quis afastar da aparência inicial, que se tornou um trauma.

Um homem reprimido, o anti-Narciso que jamais se apaixonou por si mesmo ao ver-se refletido e o eterno Peter Pan que sorria e falava de forma ingénua e que mesmo enquanto adulto tinha de ser entretido pela cozinheira, que só dessa forma conseguia que ele se alimentasse.


Fontes: https://i.pinimg.com/564x/75/d9/cf/75d9cfc93df9a633ec1770d64d4de88a--archangel-michael-michael-jackson.jpg
http://www.grioo.com/images/rubriques/7/21020.jpg




Escrito por Mariana Pinto

segunda-feira, 12 de março de 2018

O bella ciao

Questa mattina mi sono alzato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao





É difícil que esta música ainda não se encontre alojada, em loop, no teu cérebro. Desde que a série La casa de papel explodiu na Netflix e, consequentemente, nas redes sociais, que todos recebemos um ímpeto de força e, mesmo os mais tímidos, sonham com a flor da Resistência.


Fonte: http://www.imdb.com/list/ls027122650/mediaviewer/rm4098109696



La casa de papel conta a história de um assalto perfeito à Casa da Moeda de Madrid. Desenganem-se os que estão a pensar que os roubos de alta escala são um dos grandes clichés do cinema e que, por isso, vem aí mais do mesmo, embrulhado num papel festivo castelhano. A perfeição deste empreendimento é milimétrica, exigiu cinco meses de estudo intenso e uma vida de idealização.


El profesor, o líder do projeto, recruta oito ladrões de elite para levar a cabo o maior golpe monetário europeu. Proibidos de manter relações ou de partilhar informações sobre a vida privada, são atribuídos aos profissionais nomes de grandes cidades do mundo. Assim, Tóquio, Nairóbi, Moscovo, Rio, Denver, Berlim, Helsínquia e Oslo, depois de completarem a formação de cinco meses, vão de fato vermelho, armas e máscaras de Salvador Dalí tomar o edifício madrileno. Não pretendem matar ou torturar os reféns que fizerem, uma vez que um dos objetivos principais deste plano é criar uma linha ténue entre a definição de «bons» e de «maus». 


Quando entram na Casa da Moeda, formam grupos de reféns e delegam tarefas a cada um deles: uns vão imprimir e embalar dinheiro, mais precisamente 2,4 mil milhões de euros, outros vão fazer escavações para, mais tarde, facilitar a fuga dos oito assaltantes. Para que as máquinas imprimam notas de cinquenta euros que jamais poderão ser rastreadas, o roubo teria de se estender a onze dias. O tempo é, literalmente, dinheiro para El profesor e, como tal, a polícia teria de ser ludibriada vezes sem conta, ou com pistas falsas ou com pequenos mimos, até as engrenagens produzirem a última nota. 


Asseguro que a genialidade deste magno plano vos vai tirar o sono. O meu pai que o diga. As séries nunca foram a sua paixão, contudo La casa de papel fez com que ele se deitasse às duas da manhã, durante uma semana. A minha mãe agradece os roncos que ficaram por ouvir. Por outro lado, lá praticava o seu castelhano com umas tiradas como esta: «Raquel, yo soy un hombre de suerte!», enquanto dava pulos de êxtase (resultado da adrenalina) no sofá. 


A vontade do espectador é que os assaltantes, dotados de um espírito sonhador, consigam a liberdade e sejam um símbolo de Resistência contra a corrupção política, de grandes entidades ou de empresas. Apesar de roubarem uma grande quantidade de dinheiro, este não pertence a ninguém, já que foi fabricado ex nihilo. De outro modoa corrupção que assola a economia dos principais estados mundiais, tira o pão ao peixe que vai ficando cada vez mais miúdo.  



Fonte: https://i.ytimg.com/vi/cQYvQIrM1FY/maxresdefault.jpg



Escrito por Susana Ferreira. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

À parte

Foto de Leonor Lourenço. 


Em pequena, antes de entrar para a escola primária, sempre me conheci assim: sozinha a desenhar, em casa da minha avó. Estraguei-lhe tantos guardanapos para desenhar, quando ela não tinha folhas de papel por casa! Coitada. Depois, lá se vergou e começou a comprar-me blocos de desenho. Também prescindia das revistas para eu aproveitar as margens e todos os outros espacinhos lisos. 

Para desagrado da minha ansiedade social, lá tive de ir uma temporada para o A.T.L, antes de entrar efetivamente no ensino básico. Como fiquei com saudades da casa da minha avó e dos guardanapos dela! No A.T.L havia muitos filmes da Disney e muitas crianças para brincar, mas eu lá encontrava uma mesa à parte para desenhar nas folhas A3 e pintar com marcadores grossos que deslizavam muito bem. Enfim, coisas requintadas que as creches facilitam às crianças! Ao menos tinha material luxuoso, coisa que a minha avó nem sonhava.

Quando já estava na escola, lembro-me de insistir com a minha tia para desenhar noivas e princesas. Ela tinha tanto jeito e eu adorava contemplar o traço da verdadeira artista. Ela ficava tão aborrecida por desenhar sempre o mesmo... Mas eu precisava de ver! Só para apanhar o jeito e desenhar as minhas próprias bonecas! Também queria fazer vestidos compridos e penteados armados. Daí em diante, quando as aulas não tinham assim tanto interesse, eu pegava numa folha de rascunho e desenhava as minhas bailarinas e princesas. Foi assim até à faculdade.

Na faculdade, optei por desenhar árvores com formas abstratas e cornucópias, contudo não me podia distrair porque eu gostava de tirar muitos apontamentos e passar a todas as cadeiras. Mesmo assim, ainda se encontram uns rabiscos graciosos nas folhas universitárias pautadas.

Por algum motivo, o desenho sempre me acompanhou, mas eu nunca o acompanhei a ele. Resgatava-o, uma vez por outra, quando precisava ou quando me queria abstrair. 

Recentemente, a minha tia (a das noivas e das princesas) desafiou-me para integrar os grupos de desenho que ela costuma frequentar. Ela é, sem dúvida, uma artista. Eu sou uma curiosa que gosta muito do que está a aprender. E aprende-se muito! Estar rodeada de erudição e de sensibilidade é uma espécie de nirvana. Já sei que se devem evitar os pormenores e o uso excessivo da borracha; que desenhar ao ar livre permite ter uma conceção de espaço muito maior e que dá calo, pois as condições atmosféricas e os distratores próprios da natureza alargam a nossa capacidade de raciocínio e de concentração; e que desenhar é para todos! Um dos artistas que integra o grupo disse muito sabiamente: «Se também aprendemos a escrever, aprendemos a desenhar!» Afinal, os nossos ancestrais começaram pelo desenho e, só muito depois, apareceu a escrita. 

Até à data compareci a dois encontros, um no Motoclube de Coimbra, dinamizado pelo grupo MoSk - Montemor Sketchers, e outro em Porto de Mós, organizado pelo grupo LeSk - Leiria Sketchers. O ambiente é muito saudável, de partilha de ensinamentos e de experiências. Mesmo que as criações não corram como gostariam, é importante não ter vergonha de mostrar, porque só assim se pode absorver mais conhecimento. 

Parece que agora me volto a sentar numa mesa à parte, onde estão mais pessoas sozinhas a rabiscar com canetas bonitas.


Fotos do meu caderno de desenho. Ultimamente, tenho estado dedicada à fauna e à flora. 



Encontro MoSk no Mototurismo do Centro. A minha primeira mota. 



Porto de Mós, Leiria. Encontro LeSk. 


Castelo de Porto de Mós, Leiria. Encontro LeSk.


Os desenhos que consegui neste dia.

Se tiverem curiosidade, pesquisem estes grupos de desenho no Facebook!  aqui e aqui



Escrito por Susana Ferreira.