quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tributo à inconsciência


Duas breves histórias que permitem compreender a ventura dos que são providos de ingenuidade, capaz de os fazer ser felizes nas mais adversas circunstâncias.


No tempo da minha avó era costume que as vizinhas se dispusessem à varanda a ver passar. Ora, certo dia, uma delas repara numa outra vizinha que passava e vinha a cantar alegremente. Surpreendida com a natural disposição da mulher, tece o seguinte comentário:


     - I., que vontade de cantar!



 Perante a intervenção, a citada depressa esclarece:



      - Canto para não chorar! Tenho a casa como a rua.*

*metáfora utilizada para se referir à falta de bens alimentares.





💭 




Quando criança, o meu tio viu pela primeira vez um espelho. Ao mirar-se, deslumbrado, não reparou que a mãe estava atrás dele. Assim, estupefacto, e ao ver o rosto dela refletido, exclama:


      - Espelho, espelho, és tão parecido com a minha mãe! 








Ela canta, pobre ceifeira,    
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave       
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece, 
Na sua voz há o campo e a lida,                                 
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

                               Fernando Pessoa


Escrito por Mariana Pinto

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