sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Deus queira que sim


Deus nunca quis nada comigo. E, na verdade, eu quase nunca quis nada com ele. Perdão, com Ele. Quando me desejam boa sorte e muitas felicidades na vida, acrescentam sempre «Deus queira que sim, que consiga tudo o que deseja». 

Assim que dizem «Deus queira que sim», pressinto que Deus, ao ler o meu processo, declina de imediato as minhas ambições e dedica-se ao filho seguinte. Afinal, quem sou eu aos olhos do criador? Ninguém, não posso querer ser ninguém depois de uma infância infrutífera e de uma adolescência sem crisma. 


Ainda tive umas bíblias ilustradas e uns catecismos com criancinhas felizes, desertas para aprender a palavra do senhor. Perdão, do Senhor. (Afinal, as maiúsculas servem para realçar quem verdadeiramente as merece). Rapidamente percebi que me estavam a tentar vender a banha da cobra e, apesar de histórias muito lindas com dilúvios e arcas que albergavam todo o reino animal (sem que se desse início a uma cadeia alimentar complexa), eu sempre desconfiei do Senhor que, em apenas sete dias, ergueu a bola gigante em que habitamos. Nunca fui em cantigas (só na «Eu tenho um amigo que me ama» porque, algures no meu cérebro, há um coro de igreja a entoar este cântico mesmo que eu não queira) nem em parábolas, ainda que reconheça o seu valor expressivo. 


Dizem que chorei muito no meu batizado, mas eu era um bebé naturalmente rezingão. Deus tinha de perdoar as cólicas e a fome descontrolada de um ser que tinha acabado de brotar, por meio de ventosas, neste mundo. Fui absolvida, no entanto a primeira impressão é tudo. O meu segundo encontro com Deus deu-se quando entrei na catequese. Os primeiros tempos foram divertidos, porque prolongava a brincadeira com os amigos da escola e até estava contente. O pior foi quando faltei ao respeito, prestes a consumar a primeira comunhão, ao filho do criador. Sinto que a minha malapata espoletou aqui. 


A minha avó, muito atenta às necessidades eclesiásticas da neta, achou por bem perguntar:
- Então, Susana, quando o senhor padre te der a hóstia, vai dizer «O corpo de Cristo». Aí, o que é que tu respondes? Sabes? Vá, já vais fazer a primeira comunhão tens de saber isto!!
- (Pausa com tensão dramática).
- Então, sabes?
- Sim. Respondo «Está bem!». 



Às vezes um «Amém» pode assegurar uma vida repleta de fecundidade. Nunca se esqueçam. 


Bom, depois do segundo encontro houve mais um ou dois. Mas murchos. O espírito do Senhor nunca habitou propriamente em mim e eu decidi fazer uma vida independente. Não minto que recorri ao Pai para situações de aflição e que lhe paguei com uma Avé Maria e com um Pai Nosso, porque são as únicas orações que sei muito bem e porque cético que é cético gosta de desafiar o esotérico pontualmente. 


Mesmo não acreditando, sempre fui ao poço da esperança e do impossível tentar reanimar aquilo que toda a vida esteve morto em mim. Como se quisesse dizer «Vá, se algum milagre ou truque de magia existem, que seja agora!», embora sabendo muito bem que não existem forças sobrenaturais e, mesmo se existissem, não se iam revelar só porque eu estava a lançar um ultimato. Acho que é esse o verdadeiro problema... Para além de não acreditar n'Ele ainda o quero dirigir. Deus tem vários processos em cima da mesa e vários filhos para atender, por que motivo se ia ocupar com uma herege que nem sabe receber o corpo de Cristo? Deus deve olhar para minha lista de desejos e responder «Está bem!». E ainda acrescenta uns bigodes e uma monocelha na fotografia que consta da ficha de utente.




À parte estas divagações pré fim de ano, espero que tenham um bom Natal, com todos os lugares-comuns a que o Natal obriga e que nos deixam tão emotivos.



Amém.


Escrito por Susana Ferreira. 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tributo à inconsciência


Duas breves histórias que permitem compreender a ventura dos que são providos de ingenuidade, capaz de os fazer ser felizes nas mais adversas circunstâncias.


No tempo da minha avó era costume que as vizinhas se dispusessem à varanda a ver passar. Ora, certo dia, uma delas repara numa outra vizinha que passava e vinha a cantar alegremente. Surpreendida com a natural disposição da mulher, tece o seguinte comentário:


     - I., que vontade de cantar!



 Perante a intervenção, a citada depressa esclarece:



      - Canto para não chorar! Tenho a casa como a rua.*

*metáfora utilizada para se referir à falta de bens alimentares.





💭 




Quando criança, o meu tio viu pela primeira vez um espelho. Ao mirar-se, deslumbrado, não reparou que a mãe estava atrás dele. Assim, estupefacto, e ao ver o rosto dela refletido, exclama:


      - Espelho, espelho, és tão parecido com a minha mãe! 








Ela canta, pobre ceifeira,    
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave       
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece, 
Na sua voz há o campo e a lida,                                 
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

                               Fernando Pessoa


Escrito por Mariana Pinto