quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O meu lugar está além


Fonte: https://i.pinimg.com/originals/2f/0c/a6/2f0ca60ea328ad34fd475677d5887eca.png



Entre as nove e as dez o volume da música local sobe porque o António Variações apareceu, por acaso, na lista de reprodução. 


Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde.


Entre as nove e as dez eu não caio num buraco mas cresço e encolho consoante a sombra e a luz dos pensamentos. À minha volta, os operários de copas, de paus, de espadas e de ouros continuam o seu labor para não estancar o fluxo de produção ou aborrecer o maioral. Mais depressa ou mais devagar, eu cresço e encolho e cresço e encolho, enquanto espero pela sentença. 



Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar.


Entre as nove e as dez passam cinco horas. Entre as nove e as dez há lagartas que me fazem rir e me aquecem com o vapor do cachimbo de água. Também há gatos sinistros que me dizem que vou encontrar o meu lugar e para eu não me preocupar. E há uma mesa, sempre posta e resignada, com uma lebre e um chapeleiro que, estupidamente felizes e descoordenados, me vão oferecendo histórias bizarras com chá e açúcar desconsolados. 


Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
...


Entre as nove e as dez há um coelho que pergunta: 
- Susana?
- Sim.
- Já falta pouco, Susana. - diz, olhando para o relógio. 

O que é «pouco»? «Pouco» pode ser, apenas, uma hora... Mas entre as nove e as dez não passa só uma hora... E, assim sendo, um dia tem vinte e nove horas... Se todos os dias tiverem vinte e nove horas, os meses ficariam com, aproximadamente, trinta e seis dias... Dependendo do tempo que passa entre as nove e as dez, os meses podem crescer cada vez mais. Se os meses aumentarem, eu vou crescer e encolher vezes sem conta, as lagartas vão precisar de mais tabaco para atestar o cachimbo, os gatos vão precisar de molas para manter os sorrisos e de placas para me indicarem o lugar, já que a boca vai estar tão dorida que não vão conseguir falar. A lebre e o chapeleiro vão ficar sentados a uma mesa vazia, sem histórias para contar. 


Porque eu só estou bem
Aonde não estou.



O António volta amanhã. Na verdade, o António volta quando quiser porque o António já é uma entidade, dada a relevância e a vanguarda. O volume baixa. A porta abre-se. Alguém grita: 


- CORTEM-LHE A CABEÇA!!!!! 


Eu acordo do transe. Já são dez horas e um minuto. Já só falta uma hora para ir para casa. Volto a crescer e acabo de pintar as rosas que faltam. 



Escrito por Susana Ferreira.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Jesus e o Feminismo

As teorias acerca da possível companheira do Messias foram difundidas ao longo da História, inclusive em referências nos próprios evangelhos.  

O grande mote para esta conspiração aparece na pintura de Leonardo Da Vinci, "A última ceia", encomendada ao artista pelo duque de Milão, Ludovico II, de forma a decorar o refeitório do monastério dos padres dominicanos de Santa Maria delle Grazie. 

O quadro representa um momento fulcral do Evangelho de João, quando Jesus anuncia que um dos discípulos o trairia. 

Da Vinci, uma das figuras máximas do Humanismo, dotado de conhecimentos em anatomia, entre as mais diversas áreas, reproduz de modo excecional as reações das várias figuras. ´

A grande particularidade da imagem reside na figura à direita de Jesus, identificada como João. As vestes de todos assemelham-se e alguns discípulos apresentam o cabelo comprido, porém a pessoa do lado direito ao de Cristo denuncia caraterísticas femininas, como um rosto mais fino do que os restantes. 

Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2012/03/santa-ceia.jpg


Assim sendo, os estudos apontam para o aparecimento de uma outra personagem a ocupar o lugar de João, Maria Madalena. Embora ela tenha ficado conhecida como "a prostituta" (https://cantosuperiordireito.blogspot.pt/2016/09/5-motivos-pelos-quais-devemos-ler-biblia.html), não existem indícios concretos na Bíblia para tal confirmação. 

Fonte: http://imgsapp2.correiobraziliense.com.br/app/noticia_127983242361/2014/11/10/456916/20141110162931541796e.jpg


As informações preservadas indicam que Maria Madalena seguiu Cristo e tendo em conta que  há um evangelho da sua autoria, presume-se que também ela fosse um dos discípulos. 

A ocultação de tal categoria poderia estar relacionada com a inferioridade atribuída ao género feminino, que começa desde logo na Bíblia. 

Segundo as investigações da área, o mistério do Sant Graal (Sangue Real) não passaria pela localização do cálice onde Cristo teria bebido pela última vez nesta cerimónia, mas pela identificação do filho de Jesus Cristo e Maria Madalena


Caso a figura à direita de Jesus passasse para a sua esquerda.



Após a crucificação, Maria Madalena teria partido para França, tentando assim escapar aos que tentariam aniquilá-la e encobrir para sempre a revelação. 

No país, Maria Madalena teria encontrado proteção e daria seguimento às doutrinas de Cristo, encarnando a figura principal da Igreja Católica


***

A História faz-se também de teorias, mais do que se imagina, por isso interpretá-la é um exercício de cada um. E na verdade, por que não podemos encarar que Jesus Cristo como homem tivesse escolhido uma companheira, a tivesse agregado aos seus próximos e a elegesse sua representante, sendo precursor do feminismo?


Escrito por Mariana Pinto

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Quem são os 4??



Fonte da imagem de base:
http://generourbano.com/wp-content/uploads/2017/04/Maluma-Felices-Los-4.jpg










Parece que o Despacito já tem sucessor. Alguém chamado Maluma decidiu apostar num reggaeton que enaltece o adultério ou o swing ou outra coisa qualquer, intitulado Felices los 4. Quando ouvi a música, a primeira pergunta que assaltou a minha mente foi «mas quem são os quatro?». Na verdade, por muito que discorra acerca de relações levianas e sem compromisso, o sujeito poético nunca refere a identidade do quarto elemento, o que nos pode levar a diversas leituras. Contudo, vamos por partes. 


Maluma, gata

Quando o sol acaba de sair, você vai embora correndo
Sei que você vai pensar que isso me dói
Mas eu não estou pensando no que você está fazendo
Se somos alguma coisa e nos queremos assim

Se você fica comigo
Ou se vai com outro
Me importa merda nenhuma
Porque eu sei que você vai voltar (2x)

E se você fica com outro
Vamos ser felizes, vamos ser felizes
Felizes nós quatro
Aumentaremos o quarto

E se você fica com outro
Vamos ser felizes, vamos ser felizes
Felizes nós quatro
Eu aceito o seu trato

E faremos mais uma vez (4x)



O sujeito poético começa por se apresentar à amada ou à «gata», como ele gosta de dizer. De seguida, começa por referir que, quando amanhece, a «gata» acaba por escapulir-se do ninho do amor para ir ter com outro homem. No entanto, o «eu» lírico não está muito ralado com isso, uma vez que a «gata» acaba sempre por voltar para casa. Aliás, sabemos que o «eu» lírico está mesmo muito pouco importado, quando sugere que se contrate um empreiteiro para começar a tratar das obras do quarto lá de casa, para que possam viver todos juntos, felices los 4. Agora, convém saber quem são os quatro! Até para ver se dá para poupar no recheio e na decoração que se vai pôr depois das obras. Pelas minhas contas, ainda só há três elementos nesta relação amorosa.



Será que, à moda da Ágata, há aqui um filho envolvido? Tira-me tudo na vida,/ e o mais que consigas,/ Mas não fiques com ele. Será que temos uma «gata» que gosta de passar um «rato» com outro homem, mas que já tem um filho do homem oficial? É uma hipótese, porém os filhos não dormem no quarto... Só quando são bebés. Não faz sentido aumentar o quarto só para três pessoas. Manda-se já o empreiteiro embora!



Por outro lado, podemos sempre pensar que há um animal de estimação envolvido... Mas, à semelhança dos filhos, são raros os casos em que os «perros», os «gatos», os «conejos» ou os «pájaros» dormem no tapete do quarto. 



Bom,vamos ver se o sujeito poético avança com alguma conclusão...



E faremos mais uma vez
O que é nosso não depende de um pacto
Apenas aproveite e sinta o impacto
O boom boom que te queima, esse seu corpo de sereia
Fique tranquila, porque eu não acredito em contratos
(E você menos ainda)

E sempre que se vai, você volta para mim
(E felizes nós quatro)
Não importa o que dirão, gostamos assim
(Aumentaremos o quarto, querida)

E sempre que se vai, você volta para mim
(E felizes nós quatro)
Não importa o que dirão, fomos feitos um para ou outro

E se você fica com outro
Vamos ser felizes, vamos ser felizes
Felizes nós quatro
Aumentaremos o quarto (5000x)

E se você fica com outro
Vamos ser felizes, vamos ser felizes
Felizes nós quatro
Eu aceito o seu trato (5000x)

E faremos mais uma vez (10.000x)




E pronto. Continuamos com elogios tremendos à figura da «gata» e com promessas de felicidade sem acordo burocrático e de reconstrução de uma parte da casa. Até agora, nem sinal do quarto elemento. 




E sempre que se vai, você volta para mim
(Maluma, gata)
Não importa o que dirão, gostamos assim
(Kevin ADG, Chan El Genio)
E sempre que se vai, você volta para mim
(O código secreto, gata)
Não importa o que dirão, fomos feitos um para ou outro
O destino quis assim, gatinha


(Tradução retirada de www.letras.mus.br)




Mas o destino não paga as contas! Uma pessoa a mais é algo que precisa de ser debatido! Devo dizer que o Despacito, no que diz respeito ao lirismo, está muito acima de Felices los 4. Para além de ser inteligível, encerra um propósito claro: seduzir a dama devagarinho. Felices los 4 embrulha somente uma proposta de vida cuja matemática é duvidosa. 


A única solução é que, efetivamente, haja outro elemento feminino que passe «un rato» com o sujeito poético, isto é, temos o sujeito poético, a «gata», o «otro» e a que há de vir para fazer ciúmes à «gata» e ao «otro». Assim, o ramalhete está completo! As variáveis da equação estão reconhecidas, agora é só dar início à empreitada e à divisão de despesas. 




Escrito por Susana Ferreira. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Uma mulher negra com as mamas à mostra - concretização da atividade

Certamente se recordarão do primeiro post com o mesmo título (https://cantosuperiordireito.blogspot.pt/2017/07/uma-mulher-negra-com-as-mamas-mostra.html), onde referi o interesse em realizar uma atividade que passava pela descrição de uma pintura particular. 

Ora, o exercício foi proposto a dois alunos de 6.º Ano e destaco desde já a sua surpresa ao ouvir que o alvo da sua análise seria AQUELE quadro. 

A pintura trata-se, à primeira vista, de uma mulher negra que exibe a sua frente desnuda. Mas passemos ao olhar dos discentes.


Este quadro retrata uma senhora já de certa idade, a pele dela é negra. 
A figura parece estar contente pois deve ter conseguido comprar comida para os seus filhos. Ela é pobre e não deve poder comprar alimentos. Esta mulher tem muitos acessórios como colares azuis, amarelos e rosas, também uma rasta no cabelo e um lenço na cabeça como proteção para o sol. 
A senhora parece-me estar a olhar para o retrato ou para a câmara, pois ela poderia ter viajado e quis tirar uma foto.
O traço mais relevante é o conjunto de cores no fundo do quadro, porque sem ele a pessoa não ficaria tão destacada.  
   F.


Esta imagem é de uma mulher africana. Ela tem um lenço na cabeça com várias cores, por exemplo azul, a lembrar a noite, vermelho como a raça de um benfiquista e o amarelo como as estrelas a brilharem. 
Na pintura,  a mulher usa uma rasta de cor castanha e um colar de cor verde como o caixote do lixo e cinzento como as cinzas do fogo. Parece estar a pensar no seu futuro.  
O quadro é feito de areia, logo se conseguisse tocar sentiria uma textura rugosa. 
Para mim o traço mais importante é a rasta da mulher porque nunca tinha visto ao "vivo" e fez-me lembrar o Bob Marley. 
L.
(Os textos foram previamente corrigidos.)



Por fim, estas foram as conclusões a retirar:


  • Nenhum dos alunos fez referência ao facto de a mulher apresentar as mamas à mostra como esperado e explicado pelo pudor sentido;
  • Ambos referiram os acessórios envergados pela figura, o lenço, os colares, a rasta, destacando as cores de cada elemento. O L. optou por usar as comparações e enriqueceu desta forma o texto (agora entendo a porquê da insistência em que eu lesse uma delas, dizia ele que estava excelente, é claro que se tratava da referência ao Benfica);
  • Enquanto um considera a mulher contente, apresentando como motivo ter conseguido comida para os filhos, o outro crê que o seu olhar denuncia o ato de reflexão sobre o futuro. Cada interpretação está intimamente relacionada com a personalidade do aluno, se o primeiro revela sempre uma preocupação com a situação do mundo e os problemas inerentes, o segundo tem numa carreira de sucesso um objetivo a perseguir;
  • O primeiro discente alude ao foco do olhar da figura e desviando-se da condição em que a colocou acima, imagina-a a viajar e a pousar para uma fotografia. O F. a encontrar sempre algo de bom em qualquer situação. O segundo aluno enfatiza uma informação que eu já lhe havia dado, o facto de o quadro ser feito de areia e prevê a sua textura caso lhe tocasse. O L. fixa com facilidade todos os dados relevantes. 
  • Para o F. o ponto mais marcante do quadro é a panóplia de cores, que na sua opinião deixam que a figura feminina sobressaia. No caso do L., a rasta da mulher chamou a sua atenção visto que a associou à imagem do cantor Bob Marley. Em relação ao primeiro, reconhece-se a perspicácia na caraterística apontada, no segundo a admiração e destreza em relacionar elementos. 


À exceção das restantes, esta foi uma atividade concretizada para posterior correção. Para a semana entregarei a correção e em conjunto refletiremos sobre as conclusões referidas. Elas coincidiram com as minhas expetativas iniciais e "entrar" na cabeça deles através da escrita revelou-se mais uma vez uma experiência gratificante.  


Deixo-vos o desenho da pintura que acompanhou o texto do L :)



Escrito por Mariana Pinto