quinta-feira, 25 de maio de 2017

A ternura dos 50


Fonte da imagem original: https://i.ytimg.com/vi/D9af9TE57Yw/hqdefault.jpg



E melhor do que a minha tia? Só o meu pai a imitar a minha tia. 



- Então não foram tentar assaltar a casa da vossa tia? Olhem, ligou-me a dizer para ir lá, caso fosse necessário alguma ajuda... Já sabem como ela é, parece uma metralhadora a falar... Um gajo quer dar uma achega ou falar sobre qualquer coisa... Mas quê? Ninguém para o Benfica!!! Está sempre ''tumba, tumba, tumba...''. 



- AI Ó MÁRIO, ENTÃO TU JÁ VISTE??? (O meu pai dá-nos um safanão no braço, tal como a minha tia lhe fizera momentos antes, fala com voz mais fina, põe um gesto mais feminino e puxa o gatilho.) Ó MÁRIO, TU JÁ VISTE? OLHA, LIGUEI PARA TI PORQUE FOSTE LOGO DE QUEM ME LEMBREI!!!! SABES BEM QUE TENHO POUCOS NÚMEROS NO MEU TELEMÓVEL E LEMBREI-ME LOGO DE TI!!! OLHA, FUI AO MEU QUARTO PARA IR BUSCAR OS MEUS MEDICAMENTOS, (SABES QUE EU NÃO POSSO TER OS MEDICAMENTOS NA MINHA COZINHA, PORQUE OS MEUS NETOS MEXEM EM TUDO, NÃO É?), E VI UMAS LANTERNAS APONTADAS!!!!!!! ANDAVAM NA LOJA!!!! EU FUGI LOGO PARA A COZINHA!!!!! O MEU HOMEM É QUE FOI LOGO DISPARADO E GRITOU «COMO É QUE É???? QUEREM CHUMBO?????»... AI, ESTE HOMEM NÃO SABE FAZER NADINHA!!!! SE NÃO TIVÉSSEMOS DITO NADA, A POLÍCIA APANHAVA-OS EM FLAGRANTE!!! AGORA O MEU HOMEM FOI, EM CUECAS, PERSEGUI-LOS ATÉ À ENTRADA DA CIDADE... AI, NÃO SOUBEMOS FAZER NADA!! TU JÁ VISTE MÁRIO???? 


************Pausa no momento dramático************ 

 ⏸️⏸️⏸️


- AI Ó MÁRIO, ESTÁS TÃO BEM!!!! O QUE É QUE ANDAS A FAZER, MÁRIO??? DE NÓS OS CINCO, ÉS O QUE ESTÁ MELHOR!!! JÁ NÃO TE VIA HÁ TANTO TEMPO!!! ÉS O IRMÃO QUE ESTÁ MELHOR!!! OLHA PARA ISSO!!! ESTÁS BOM!!! 


O meu pai lança aquele sorriso maroto e as maçãs do rosto ficam ruborizadas. Isto de ser fit dá para arrecadar uns elogios... Ai, a ternura dos 50, não tem conta nem medida. 




Escrito por Susana Ferreira.  

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Os pobres de Cristo


O despoletar de casos de pedofilia não é recente. Spotlight revelou a investigação acerca dos abusos sexuais por membros da arquidiocese católica de Boston. Por cá, a Casa Pia de Lisboa abrigou o escândalo de abusos por parte de várias figuras públicas e de um ex-funcionário da instituição.

Em 2017, a Netflix traz-nos o documentário The Keepers - Who killed sister Cathy? sobre o cenário oculto de violações que aconteciam na escola secundária de Baltimore. Depois de um vasto e longo percurso de inquirição, a morte da freira Cathy Cesnik parece relacionar-se diretamente com o sucedido.


Fonte: https://fyc.netflix.com/_img/Keepers_sdp_USA_en.jpg


Segundo se aferiu, Cathy saberia dos abusos e estava disposta a delatá-los. O mesmo teria ditado a sua morte, engendrada pelo homem por trás de todo o caso, Joseph Maskell, capelão da escola.

Impotentes devido à vergonha e ao temor pelo agressor, as vítimas começaram a revelar-se anos mais tarde, motivadas pela investigação de duas das antigas alunas da freira.

Depoimentos, provas, ligações e nenhuma solução... tal como ocorre sempre. Enquanto os poderosos forem protegidos, não haverá justiça para aqueles que creem que a religião é mais do que lhe deram a experimentar, os pobres de Cristo.


Escrito por Mariana Pinto

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ma vie de Courgette

Fonte: https://kpbs.media.clients.ellingtoncms.com/img/news/tease/2017/03/02/1030819-gkids-announces-acquisition-my-life-zucchini.jpg


O cartaz deste filme cativou-me pelo facto de se assemelhar, um pouco, à estética das animações de Tim Burton: personagens de olhos esbugalhados, de cabelos sem direção, de semblante inocente e, ao mesmo tempo, sombrio. Na verdade, o meu prognóstico não falhou redondamente, uma vez que cada uma destas crianças esconde um monstro no armário. 

Em estilo stop motion, vamos assistindo à vida de Courgette, um menino que vive com a mãe alcoólica. A mulher passa o dia em frente à televisão, praguejando sozinha e consumindo dezenas de latas de cerveja. Courgette brinca no sótão, construindo torres com essas mesmas latas, agora vazias. Um dia, uma das construções desaba e as latas espalham-se pela casa. Furiosa e embriagada, a mãe sobe ao sótão para açoitar o menino, como sempre fazia. A criança, aterrorizada, fecha o alçapão que dava acesso ao compartimento, magoando a progenitora e causando a sua morte. 

Este desenlace traumatizante leva Courgette a um orfanato, onde estão outros meninos com histórias igualmente trágicas. Entre o abuso sexual de menores, o abandono infantil, o transtorno obsessivo-compulsivo, o suicídio e os maus-tratos, as crianças tentam superar os seus fantasmas e concentrar-se naquilo que a sua idade realmente exige: a brincadeira e os estudos. Juntos descobrem como nasceu a civilização, como se fazem os bebés, como os adultos podem ser cruéis e como a amizade nos pode salvar. 



Fonte: https://i.ytimg.com/vi/4d9N5Y_sN8Q/maxresdefault.jpg



Embora o filme seja classificado para maiores de seis, tenho algumas dúvidas se, efetivamente, uma criança de seis anos compreenderá todas as problemáticas que o filme engloba. Julgo ser necessária alguma maturidade e predisposição para absorver alguns diálogos que, uma vez por outra, são secos. 

O filme tem a duração de 1h, é muito comovente e, acima de tudo, deixa uma mensagem de esperança e de amor pelo próximo. 




Fonte: http://goodtimes.sc/wp-content/uploads/2017/03/film1711-my-life-as-a-zucchini-1000x600.gif



Escrito por Susana Ferreira.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Querido maio,



Esta chuva está a manipular a ordem natural das coisas. Vê lá se pões um travão nisto.


  • O meu cabelo parece que anda sempre molhado, acachapado e com pequenos filamentos rebeldes no cimo da cabeça. É chato porque não quero parecer um franguito de aviário.

  • Os pés fazem choc choc nos pisos encharcados e arrastam as águas para as superfícies secas, deixando pegadas de sumo de terra por todo o lado. 

  • A minha avó quer que fique em casa a ver as celebrações que se estão a desenrolar em Fátima: «O tempo está mau, fica a ver a chegada do Santo Padre! Não te rias Susana. Não nos devemos rir destas coisas. Só te faz bem!»

  • O meu cão Leonel rouba os tapetes do estendal, para poder contemplar a chuva de uma forma mais pomposa. Vejam como ele escolheu o tapete que condiz com o seu pelo camel.




  • O meu pai apegou-se demasiado ao seu smartphone. Eu nem sabia que ele conseguia redigir uma SMS tão longa e tão bem pontuada. Tenho de elevar a fasquia do meu pai, no que diz respeito às novas tecnologias. Nota: Pai, ''conselhos'' deveria estar escrito com ''s'' mas a tua filha perdoa-te essa! 





Pensa nisto, maio. 



Cordialmente, 


Susana Ferreira. 



quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Fórmula da Juventude


Vejo-me eu com a idade a avançar e, irremediavelmente,  começam as preocupações com o envelhecimento da pele.

Já há algum tempo que tinha ouvido falar dos benefícios do chamado Sabonete Leite de Burra, então decidi arriscar na compra.

Fonte: http://www.almanostra.com/shop/192-770-thickbox/sabonete-de-leite-de-burra-confianca.j



  • Dado que o leite de burra estimula a produção de colagénio, uma substância que promove a ligação das células da pele, ele contribui para o antienvelhecimento da mesma.

  • O efeito hidratante permite que a pele se torne mais macia e revigorada, atuando desta forma até nas mais secas.

  • Pelo facto de não recorrer a componentes químicos, trata-se de um produto natural e biodegradável.

  • Além da vertente estética, atente-se que adquirir estes sabonetes significa defender a raça do burro mirandês, a partir dos quais são fabricados.

Eles agradecem 😊

Fonte: http://farm3.static.flickr.com/2007/2529379740_567c551df3.jpg


Escrito por Mariana Pinto

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A Primeira Lei de Newton


Fonte da imagem de base: http://cdn.otbmall.com/nest_16e2e8f37e9403c3.jpg


- Vá, vamos fazer uma caminhada!! Vamos???


Entretanto, no meu cérebro: 
- Nãããããããããããooooo, por favor... Porquê?? Isso é tão dispensável. Não gosto nada de me cansar... É muito cansativo ficar cansada. O coração ecoa no corpo todo e o suor besunta as costas, as pernas, a face e os sovacos. Odeio a palavra sovaco, tal como odeio caminhar. Sovaco é sinónimo de transpiração rançosa. Aquela que fica acumulada depois de um dia de calor intenso e que resulta da convivência com uma camisola de poliéster. E os pés? Coitadinhos... Esses parecem dois frangos assados, com o peito generosamente inchado e reluzente. Eu não quero ser fit... Não quero vestir lycra, não quero andar com uma garrafa de água de 1.5L atrás (porque isso pesa e eu não quero cansar-me mais) e não quero colocar fones nos ouvidos para ser tudo mais estimulante... Para mim, tragam-me só uma cadeirinha.
Nos tempos de liceu, eu era aquela aluna que, na Educação Física, estava sempre a mudar de lugar na fila, de modo a nunca realizar os exercícios de atletismo. «Queres passar à minha frente?? Podes passar! Eu vou a seguir. Não há problema!». Enfim, pode dizer-se que aprendi o que era o altruísmo desde cedo. 
Por sua vez, quando era para fazer umas valentes corridas em torno da escola, eu apresentava um método justo: fazia um sprint corajoso à frente do professor e, quando ele não estava a olhar, descansava o corpo ofegante sentada no muro mais próximo. Enfim, também pode dizer-se que aprendi o que era o princípio da inércia ou a 1.ª Lei de Newton desde cedo: Um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento. Eu sou, sem dúvida, um corpo que ''tende a permanecer em repouso''. As forças aplicadas em mim não são suficientes para iniciar um movimento retilíneo uniforme.
No fim das corridas, eu só ansiava por ir beber água ao chafariz que se encontrava em frente ao refeitório da escola. Como eu adorava a utilidade daquele chafariz...
Por favooooooooor, não me façam ir caminhar a esta hora (nem a outras horas)... Está tanto calor. Mas por que motivo é que ainda não inventaram o teletransporte ou um fato de refrigeração de alto redimento?? Eu queria ir aos sítios sem o desgaste físico que ''ir'' implica.
Pronto, lá vou eu "fazer uma caminhada"... Porque faz bem à saúde e porque temos de respirar ar puro. Em suma, desfrutar daquilo que a Natureza nos oferece. Odeio o verbo desfrutar. Faz-me sempre lembrar um concorrente suspeitoso de reality-show, repleto de tatuagens e de bling-bling
  
 - Hum...  


Escrito por Susana Ferreira.