terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A apologia do Eu

Ela viajava só, sempre com o mesmo destino. Achava-se estranha, pelo menos diferente do que fora. Do lado, olhava o casal que inveja, por se rever nele um dia. Inventara-lhe os nomes, as profissões, inspecionava-lhe a vida e censurava-os pelas falhas. Tinha neles encontrado uma maneira de sobreviver, e não tendo uma história, vivia a deles. 

Alguns de vós reconheceram a narrativa que aqui iniciei, trata-se de A Rapariga no Comboio 

Fonte: http://static.globalnoticias.pt/storage/DN/2016/dn2015_detalhe_topo/ng7673110.jpg




O livro e o filme abrem margem para uma séria reflexão sobre a influência dos outros em nós. Quem não tem história ou a anulou, necessita de subsistir através dos demais. E, muitas vezes, a pessoa nulifica-se por eles, por aqueles que de forma diferente, precisam de inutilizar os que estão a seu lado para se fazerem sobressair. 

Em alguns casos, tende-se a ser espetador de outras vidas porque não há capacidade para desfrutar da própria. A nossa realização, assim como a interação com os outros requer que nos sintamos bem connosco. Alguém que não esteja em pleno, não vai permitir mais ninguém no seu círculo. Além disso, continuará a ser consumida existencialmente para gáudio alheio.

Também a mudança parte de nós, olharmos em frente, e a certa altura, quando nos acharem distintos, dizermos:


"(...) já não sou a mesma (o) que costumava ser."

in A Rapariga no Comboio







Escrito por Mariana Pinto

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