quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Televisão à portuguesa


Fonte: http://webvideomarketingportugal.com/wp-content/uploads/2013/06/3e5cd1e.jpeg



Já lá vai o tempo em que a televisão era um entusiasmo transversal a todas as gerações. Aliás, já lá vai o tempo em que a televisão era feita a pensar em todas as gerações. Refiro-me, especificamente, ao contexto português e aos canais generalistas nacionais.

À semelhança de todas as pessoas nascidas na década de 90, apanhei uma overdose de televisão na infância: via os desenhos animados da manhã e ainda guardava um espacinho para os da tarde. 

Uma vez que a minha infância foi, maioritariamente, passada com os meus avós, aquele aparelho era a minha companhia e o acesso a um mundo imaginário. 

Hoje, essa conceção lírica e pueril da ''caixinha mágica'' deixa de fazer qualquer sentido. Bem sei que ainda existem bons programas (e indicados para os vários tipos de público) nos canais por cabo, todavia, os três clássicos (RTP, SIC e TVI) estão entregues à arte de ''vamos fazer o mesmo do que a concorrência, mudando uma coisa ou outra para o público não desconfiar e continuarmos a ganhar muito dinheirinho''. 



Atentemos, pois, nos conteúdos que cada estação nos oferece:


📺📺


Parte da manhã (RTP, SIC e TVI) → Um talk show, dois apresentadores (um homem e uma mulher), com convidados famosos ou ''anónimos'', com um 760, com senhoras de idade respeitável no público, com música portuguesa com certeza, com um compromisso publicitário que alude aos problemas nos ossos e nas articulações e com um espaço dedicado ao panorama criminal.
Os famosos vêm dissertar acerca do seu novo ''projeto profissional'', do seu escândalo de revista ou da ''nova fase'' das suas vidas. Os ''anónimos'' vêm apresentar o seu negócio, fazer mudanças de visual ou encontrar um familiar que ficou algures no tempo.
As senhoras do público batem palmas, sorriem ou choram consoante a seriedade do assunto que está a ser tratado e fazem uma espécie de haka, quando se fala no passatempo 760!

Chega a Ana Malhoa, a Rosinha ou um fulaninho da Kizomba moderna para animar a malta, com um playback de execução duvidosa.

Terminamos com uma espécie de louvor às séries de investigação criminal, onde está um advogado e mais alguém ligado à área para discorrer, analisar e criticar as histórias macabras do quotidiano.


📺📺


Hora de almoço (RTP, SIC e TVI) → Pausa para a atualização informativa, com um jornalismo mais ou menos sério.


📺📺


Parte da tarde (RTP, SIC e TVI) → Depois do noticiário do almoço, chega-nos a primeira fornada de ficção nacional. Estas telenovelas são a prata da casa: já foram feitas há muitos anos, a qualidade é discutível, no entanto torna-se urgente reutilizar!! Esta vida não está para gastar dinheiro a fazer programas novos e interessantes!

Segue-se um talk show, 

com dois apresentadores (a TVI muda o paradigma à tarde, colocando apenas a Fátima Lopes no ecrã), com convidados famosos ou ''anónimos'', com um 760, com senhoras de idade respeitável no público, com música portuguesa com certeza e com um compromisso publicitário que alude aos problemas nos ossos e nas articulações.
Os famosos vêm dissertar acerca do seu novo ''projeto profissional'', do seu escândalo de revista ou da ''nova fase'' das suas vidas. Os ''anónimos'' vêm apresentar o seu negócio, fazer mudanças de visual ou encontrar um familiar que ficou algures no tempo.
As senhoras do público batem palmas, sorriem ou choram consoante a seriedade do assunto que está a ser tratado e fazem uma espécie de haka, quando se fala no passatempo 760!
Chega a Ana Malhoa, a Rosinha ou um fulaninho da Kizomba moderna para animar a malta, com um playback de execução duvidosa.

O modo como termina o talk show da tarde nem sempre é igual. Ressalvo que a TVI introduziu a carismática ''máquina da verdade''. Se é acusado de roubo, traição, agressão ou luxúria, saiba que o teste do polígrafo é absolutamente infalível porque tem um professor espanhol que é uma categoria a ler gráficos, numa espécie de papel milimétrico.

O final da tarde é um ''espetáculo'', no sentido em que é diferente em todas as estações! Que agradável surpresa! Na RTP, temos o habitual «Preço certo», com os agradecimentos à Freguesia de Vila Viçosa por ter disponibilizado o autocarro que assegurou a presença dos concorrentes no ''programa do gordo'', o momento das oferendas (presuntos, bandeirinhas do concelho e da freguesia, alheiras, queijos e outros tipos de charcutaria), as montras de prémios e as larachas do Fernando Mendes. Na SIC, é hora de enfiar a primeira novela brasileira na grelha e, finalmente, na TVI, passa-se revista a mais um dia na «Casa dos segredos». 


📺📺


Hora de jantar (RTP, SIC e TVI) → Pausa para a atualização informativa, com um jornalismo mais ou menos sério.


📺📺


Noite (RTP, SIC e TVI) → Apesar de a RTP apostar numa programação interessante (refiro-me aos concursos como o «The Big Picture» e ao talk show alternativo «5 Para a Meia Noite»), a SIC e a TVI optam pela segunda ou terceira fornada de ficção e de reality shows.

Quer no que concerne à ficção nacional, quer no que concerne aos reality, os assuntos são os mesmos, só mudam as caras e os locais de gravação. A TVI, em particular, arrisca nos PALOP e na Venda do Pinheiro. Se os ventos de África conferem à trama um embrulho catita, disfarçando a indigência dramática, os ares de Mafra não se afiguram tão eficazes, deixando à tona a idiotice humana. 


Em suma, a televisão de hoje está formatada para um público desleixado e permissivo. Se o público não contesta e não exige mais qualidade, variedade e criatividade, é natural que continuemos a ter, por exemplo, novelas com a duração de quase três anos.



Escrito por Susana Ferreira.

1 comentário:

  1. Golden!
    Brotei de tanto rir.
    Por momentos parecia que estava a ler um sketch do Ricardo Araújo Pereira!
    Muito bom!

    ResponderEliminar