terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vamos pôr as bolas nos is


Fonte: https://66.media.tumblr.com/6ffa22e2f63d7510e0cf715124f62fd0/tumblr_nsbmaz8YW11tl1dl9o1_500.jpg


Ora, o outono... 

Não posso mentir: esta época lembra-me, essencialmente, do regresso à faculdade e de alguma confusão quando decido o que vestir de manhã. Eu já saí da faculdade, embora ela ainda não tenha saído de mim. Confesso que sinto muitas saudades daqueles bancos de madeira danificados pela história e das fotocópias ainda quentes, acabadinhas de sair da máquina que nunca teve descanso. A senhora loura da reprografia trazia-as, envoltas num papel de rascunho, pousava-as no balcão com uma firmeza desleixada e atirava a clássica interrogativa:

- É só? - dizia de forma arrastada e hipócrita. Não condeno. Naquela pergunta, ela mascarava o cansaço com a vontade de permanecer o protótipo da simpatia e da amabilidade. 

Enfim, a faculdade já lá vai. No entanto, continuo a precisar de alguns trapos para vestir este corpito. O tempo fica desnorteado e a perplexidade cai sobre as nossas cabeças. Ficamos a olhar para a roupa, imóveis, sem saber o que será mais apropriado. E o tempo passa... 

O tempo passa...

Agosto nunca mais acabava... Tenho a sensação de que estive três meses em agosto! Contudo, setembro veio retomar a fugacidade tão característica do tempo. Ontem, às 20h, ainda se viam uns resquícios de sol. Agora, já é noite. É a parte mais agonizante do outono: a mudança da hora e os dias curtos.

Reparei que a noite já roubava espaço ao dia, na semana passada. Quando saí do trabalho, o sol já se estava a pôr. E, tal como a noite consumia o dia, um BMW cinzento apoderou-se do meu carro amarelo, usurpando-lhe o para-choques. Fiquei muito zangada no momento... O meu carro amarelo tem demasiada personalidade... É um gosto conduzir aquela viatura discreta, que nunca me deixa ficar mal... E foi assim, com o cair da noite, que vi o meu carro desmanchado e o BMW com um risco imaculado e quase impercetível naquela porta cinza verniz.

Tudo se resolveu pelo melhor. Eu e o BMW assinámos umas papeladas e, de modo civilizado, encerrámos a questão. Quando chego à oficina do meu pai, (sim, porque ter um pai cuja profissão passa pelo ramo automóvel é muito bom) ele pede-me:

- Deixa-me cá ler melhor os papéis.

- Estão aí. - digo.

- O quê??? Mas que ''letrita'' é esta??? Vai esta gente para a Universidade e faz-me esta ''letrita''??? Até eu faço melhor figura! - exclama o meu pai, escarnecendo, claramente, o BMW.

Mal o meu pai sabe que eu ainda faço bolas nos is...





Escrito por Susana Ferreira. 

Sem comentários:

Enviar um comentário