sexta-feira, 10 de junho de 2016

Falta cumprir-se Portugal!



No final d´Os Lusíadas, o Poeta lamenta a falta de reconhecimento da sua Pátria perante a homenagem que lhes foi prestada. Em modo de reflexão, aproveita ainda para tecer uma crítica amarga à decadência moral em que o povo português se encontrava.

Em Mensagem, censura-se também esta crise de valores e a somar aponta-se uma carência ao nível da identidade. A nação emana tristeza e já ninguém se reconhece. 

Mesmo face a este apagamento nacional, os dois poetas, Camões e o Supra-Camões, mostram-se orgulhosos do seu país e dispostos a continuar a cantá-lo. O primeiro disfarça a desilusão e profetiza mais e mais feitos gloriosos. O segundo apela a que a Pátria se ergua e retome o seu destino divino.

O passado foi imortalizado nas páginas da epopeia camoniana. Elas, juntamente com as páginas da Mensagem servem unicamente como obras-primas. Obras-primas desse outrora real e ilustre, que nem Pessoa conseguiu ressuscitar. 

Nada mais fizemos! Continuámos a recordar as glórias passadas mas nunca as resgatámos. Tal como tudo, também o espírito de loucura se desvaneceu. 

Cada vez mais, a estagnação. Cada um, cumprindo o convencional, fazendo o que se espera. Cada um, sendo como os outros, sempre igual. Cada um, lendo o que os outros leem, ouvindo o que demais ouvem. Cada um, gostando do que a maioria gosta e vivendo como a sociedade dita. 

Numa incorporação suprema da ataraxia, não deixamos que nada nos perturbe. Não temos ideias, não temos objetivos, habituamo-nos ao dia a dia. Não nos importamos em perceber por que algo é assim, e como o podíamos transformar.

Falta-nos a vontade e a ousadia que nos desafiem a novos empreendimentos. As grandes descobertas serão individuais, destinadas aos poucos que sonham. E delas não se falará em Portugal, talvez em Inglaterra ou no Japão. É sempre assim, sonhamos em casa, concretizamos lá fora. 

Na maioria dos casos, acontece até o inusitado. A obra feita por quem só passa muito tempo a planeá-la. A pessoa não sabe sequer do que se trata, porém disseram-lhe que é um grande investimento. Ela arrisca e ganha.

Os sonhadores, os dois de cima que fizeram história em inglês ou japonês, mas fizeram, e os oito que estão sentados, em casa, tolhidos pelo medo. Esses oito são os grandes, são os génios, são os que realmente sabem, os que leram o que de bom existe, os que escreverem o que efetivamente vale a pena ser lido. 

Uns e outros gostam irremediavelmente do país que é seu. Na verdade, afeiçoamo-nos a ele! Lá longe e à boa maneira portuguesa, sentimos e sentiremos saudades! A motivação da partida é sempre o regresso!


Talvez daqui a algum tempo, seja eu a escrever:

Querida mãe, querido pai. Então, que tal?
Eu cá ando do jeito de que Deus quer.
Entre os dias que passam menos mal
Lá vêm uns que me dão mais que fazer.

Mas falemos de coisas bem melhores
A Neuza já faz versos na exata medida
O Zaire perde-se por computadores
Pode ser que se livre de uma sorte bandida.

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo padre da igreja da Fraternidade
Pão de forno e chouriça pra merenda
Sempre dá para enganar a saudade.

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
O Bigodes vai bem ou vai fechar?
Como estão as flores do Caneiro?

Já não tenho mais assunto para escrever.
Cumprimentos ao nosso pessoal.
Um abraço desta que tanto vos quer.
Esperem-me aí no Natal.
     

Notas:

  1. Neuza e Zaire são nomes africanos fictícios; corresponderiam a alunos;
  2. Igreja da Fraternidade, uma igreja fictícia em Angola;
  3. Bigodes e Caneiro, o nome de um café local e um terreno, na minha vila, S. João da Pesqueira, respetivamente.




Escrito por Mariana Pinto

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