quinta-feira, 28 de abril de 2016

Vai uma limonada?

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O fim de semana trouxe-nos duas tendências: o início da sexta temporada de Game Of Thrones e a estreia do novo álbum visual de Beyoncé. Sobre o primeiro tópico já dissertámos, resta-nos atentar no último. E que último! A Internet está a fervilhar com este lançamento, sobretudo com a mensagem que este veicula.


Sigo o trabalho da Beyoncé desde o Dangerously In Love e, apesar de ter sempre mensagens fortes e de defender causas nobres, a verdade é que Lemonade está noutro patamar. Se a diva já era respeitada e com talento reconhecido, agora já não temos mais cognomes para a apelidar... O que vem a seguir a Queen B? Parece-me que Queen B já se torna um pouco redutor, dada a grandiosidade da sua obra.


Ao mesmo tempo, parece que é desta que o público mais casmurro se vai render e deixar de associar Beyoncé à vertente mais sexual da música. A meu ver, essas perspetivas sempre foram mal interpretadas. Não se deve confundir alguém que assume a sua sensualidade e sexualidade com alguém que se apropria de uma linguagem mais sexual para obter o sucesso fácil.



Fonte: http://imagesmtv-a.akamaihd.net/uri/mgid:file:http:shared:mtv.com/news/wp-content/uploads/2015/01/33-beyonce-gifs_-partition-1421185762.gif


Compreendo que seja quase desconcertante, tendo em conta a sociedade em que vivemos, uma MULHER admitir, de forma natural, os seus fetiches, a sua luxúria e a sua emancipação. No entanto, há que ter espírito crítico e, acima de tudo, disponibilidade intelectual para se poder compreender o que a mulher e a obra nos querem transmitir.


Neste Lemonade, Beyoncé conta-nos uma história. Conta-nos a jornada de alguém que sofreu de adultério, por parte do marido, e o caminho a percorrer até ao perdão e à reestruturação da harmonia conjugal. Esta história poderá ser ficcionada ou não, já que estamos a falar de arte. Eu diria que o poeta é um fingidor e, como tal, chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente, isto é, acredito que, efetivamente, a traição de que se fala tenha sido real mas, elevada ao plano da arte, tenha ganhado novos contornos.


Fonte: https://media.giphy.com/media/l3V0IJ4pqQAHF6X0k/giphy.gif


Como espetadora, senti que estávamos perante uma outra faceta da artista. Desta vez, Beyoncé distancia-se do que tem feito até à data: se estávamos habituados a coreografias sensuais, a sacudidelas de cabelo, bem como a diversas abordagens ao amor (em todas as suas vertentes), agora os protagonistas são outros. Elogia-se a mulher negra, passa-se uma mensagem de superação, de gestão de sentimentos face a uma possível traição enquanto se exploram novos territórios musicais.



Fonte: http://fora.mtv.ca/wp-content/uploads/2016/04/LEMONADE.gif


É, sem dúvida, o álbum menos linear de Beyoncé, marcado pelo ecletismo e pela metamorfose.


A crítica tem sido muito generosa mas há quem acuse a artista de racismo e de feminismo gorado:

- «Ah e tal ela é feminista e perdoou o marido!»
- «Ah e tal ela é feminista mas insultou as mulheres que andaram enroladas com o marido!» (Como se isto fosse uma novela da TVI).
- «Ah e tal ela quer mostrar que é muito boazinha porque perdoou!»
- «Ah e tal ela é uma fraude para o feminismo».


1.º) Feminismo ≠ Adultério. Cada um faz escolhas na vida. A escolha dela foi manter o casamento. Perdoar não faz dela menos feminista. Se eu continuava a relação? Não. Mas eu só tenho 23 anos e desconheço o que é gerir um casamento com filhos. Não me sei colocar dentro da situação. Cada caso é um caso, mas atirar postas de pescada é sempre o mais fácil. Por outro lado, volto a chamar-vos à atenção de que isto é arte. Nada do que está ali dito e mostrado corresponde EXATAMENTE à realidade. Arte também é isso, transformar os limões (experiências dolorosas ou experiências felizes) que a vida nos dá em limonada (arte = objeto irreal). O sofrimento é a melhor motivação do artista.

2.º) Se eu ouvi bem, o que a Beyoncé nos disse foi 'Call Becky With the Good Hair'. Pois bem, o Lemonade é muito mais do que uma história de traição. É também, como disse, cravejado de referências à cultura negra. Se quiserem saber mais acerca da «Becky with the good hair» leiam este artigo da MTV: http://www.mtv.com/news/2872856/beyonces-lemonade-and-what-black-girls-really-mean-by-good-hair/.

3.º) Mais uma vez: o álbum relata-nos uma jornada (intuição, negação, raiva, vazio,...) até ao perdão (perdão a si mesma e ao marido). Ela cura-se a ela própria e decide aceitar de volta o companheiro porque, de alguma forma, lhe faz sentido. Ninguém está a dizer para fazerem o mesmo. Através do seu objeto artístico, ela pretende passar uma mensagem positiva, livre de rancor. Se escolhessem o segundo retângulo do esquema que apresento abaixo, estava tudo bem na mesma e a mensagem continuaria a ser positiva =)






4.º) Voltar a ler os pontos 1, 2 e 3.


Vivemos numa era em que todos temos uma opinião muito válida sobre as coisas e o nosso bom senso anda completamente ''descalibrado''. Perdemos tempo a encontrar o senão de cada bela, mesmo que a bela não tenha senão. É nítida a mensagem que a obra nos transmite, por isso vamos beber uma limonada e aproveitar as coisas boas que, no meio de tanto ruído, ainda se fazem.



Fonte: https://secure.static.tumblr.com/bc9a46f1fdac06d2bc3ca5ea100de99f/cfkoxfn/6uuo64gya/tumblr_static_tumblr_static_4ps48ofyyzcwcgg0wc0occoks_640.gif

Escrito por Susana Ferreira. 

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