domingo, 14 de fevereiro de 2016

Encontro

Ainda que lhe custasse admiti-lo, ela não se lembrava da primeira vez que o tinha visto. Ela tinha apenas uma vaga ideia, mas não podia afirmar com certeza, a não ser que, claro, algum dia o viesse a confirmar junto dele. No entanto, isso estava ainda longe de poder acontecer.
Do que ela se lembrava era da segunda vez e, ao contrário das vezes consequentes, em que ela planeara os olhares e os sorrisos, da segunda vez não, ela podia afirmá-lo com toda a certeza do universo. Os olhos dela apenas se encontraram com os dele, por acaso ou destino, e ela formou instantaneamente um sorriso que durou tanto tempo que ele foi obrigado a responder; se por vontade própria ou apenas delicadeza, ela não sabia. Ele estava acompanhado, ela recordava-se. Mas também se lembrava de que ninguém mais se apercebeu da partilha. Ela gostava disso, tal como apreciava o facto de que, de todas as outras vezes, ele voltou sozinho. 

A pele dele era escura mas não demasiado, apenas um dourado, como ela gostava de lhe chamar, e o cabelo negro acompanhado de umas grossas, também negras, sobrancelhas que ela adorava, pois, segundo ela, sobrancelhas grossas demonstram firmeza de carácter. Apesar de obviamente bonito, ele era discreto, o que de certa forma a surpreendeu.
Ela lembrava-se perfeitamente do primeiro dia que falou com ele. Ela viu-o entrar e, quando ele olhou para ela, ela sentiu o coração dar um baque tão grande que achou que talvez ele o tivesse ouvido. Foi como uma explosão no peito que gerou uma onda de choque que se espalhou pelo resto do corpo. Ela já tinha tido o coração acelerado antes, porém nunca tinha experimentado aquela explosão de milésimo de segundo que lhe fez sentir o batimento cardíaco nos tímpanos. Ele não se dirigiu diretamente a ela nem à sua colega, o que lhe deu a oportunidade de o chamar pelo nome (pela primeira vez) … E ele respondeu. A voz dele era forte e grossa, ou pelo menos mais do que ela esperava que saísse daquela carinha ainda de menino, e não falhou, nem por um segundo; não que isso não a fizesse gostar ainda mais dele, todavia apercebeu-se de que na imaginação dela, a voz dele iria falhar, por timidez ou apenas por insegurança. Ela imaginava que os lábios dele – emoldurados pelas duas covinhas que ele tinha mesmo quando sério e em que ela ansiava colocar o dedo – seriam macios e as mãos dele, quentes, como a pele, pois, apesar de ser Inverno e ela estar vestida com três mangas, ele tinha apenas uma camisa e um casaco leve.

As trocas de olhares e sorrisos sucederam-se quase todos os dias e ele voltava para esses pequenos encontros. Num desses dias, que começou como qualquer outro, ela passou pela sala mas só na volta o viu. Era um dia bonito de Primavera e, pela primeira vez naquele ano, estava a fazer calor suficiente para ela usar apenas uma leve camisola de malha. Ao contrário, ele, como sempre, estava em mangas de camisa, branca e lisa e, caído sobre os ombros, trazia um pólo vermelho, perfeitamente colocado e imóvel, independentemente dos seus movimentos.

Nessa tarde, uma das mais ocupadas que já tivera, entre solicitações, olhou para as portas da sala e ele vinha a sair. No entanto, os eventos eram tantos que desviou rapidamente o olhar para outro pedido de ajuda. Ela não sabia porquê, talvez fosse por ser Primavera, ou porque ele a achou especialmente bonita nessa tarde, ou estava realmente cheio de confiança, ou simplesmente porque a viu tão atarefada.... A verdade é que ele veio entregar-lhe a chave em mão. Ele nunca o fazia, ela sabia que ele nunca o fazia... Deixava-a sempre no chaveiro... Naquele dia, não... Naquele dia, ele trouxe-lha, espremendo-se e inclinando-se no cantinho esquerdo do balcão sobrecarregado de gente. Ela recebeu-a, olhou para ele, a pele mais dourada do que o habitual e, através dos olhos escuros e pestanas ainda mais escuras que ela adorava, ele piscou-lhe o olho direito e o sorriso dela rasgou-se mais ainda. Aconteceu tão rápido, na presença de tanta gente e com tanto barulho ao redor, que ela não assimilou claramente o sucedido e só passados uns bons minutos interiorizou o flirt. Nessa noite, já deitada no escuro antes de adormecer, recordou o acontecido e sorriu.




Escrito por Ângela Gil.
Ilustrado por Ana Rita Lopes.

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