sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Casa-Museu Bissaya Barreto - Parte 2

A Casa-Museu Bissaya Barreto, como referi anteriormente, situa-se na Alameda do Jardim Botânico, sendo um dos lados do terreno contíguo ao muro da Penitenciária. Este terreno foi adquirido pelo Professor, no ano de 1923, por 51.615$18, com a intenção de aí construir a sua moradia; porém, só dois anos mais tarde se iniciaram as obras de edificação da mesma. Passaram-se ainda mais dois anos até que as obras estivessem totalmente concluídas e, em 1927, a casa está finalmente terminada sendo, de imediato, habitada por Bissaya Barreto.


(Fotografada por Ângela Gil)



Tanto o projeto como a construção da casa foram entregues a um Gabinete de arquitetura de Lisboa, ‘Fiel Viterbo Lda’. Não se sabe ao certo quem seria Fiel Viterbo. Mesmo depois de árdua pesquisa, nada consegui saber a respeito do homem e do gabinete ao qual dava o nome. Reservado este, não encontrei nenhum outro projeto em que estivesse envolvido. 
Sendo a sede deste gabinete em Lisboa, as trocas de informação com Bissaya Barreto davam-se, sobretudo, através de correspondência, onde podemos verificar que se ocupava não só da construção, mas também da decoração, dando conselhos e ajudando na aquisição das peças; chegava mesmo a enviar, por correio, amostras dos possíveis materiais a utilizar para que o Professor os pudesse selecionar.



Fonte: http://www.asbeiras.pt/wp-content/uploads/2015/09/FUnda%C3%A7%C3%A3o.jpg


A moradia é em forma de "L" e, como é habitual na construção da casa portuguesa, é projetada de dentro para fora, ou seja, o interior irá moldar o aspeto exterior, dando primazia ao conforto. Tanto o interior como o exterior da casa do Professor não possuem um estilo arquitetónico definido, embora a maior parte das características identificáveis sejam do barroco joanino português.




O espaço interior:


Fonte: blob:https%3A//mail.google.com/042fc535-820f-4b13-a918-4965fe8803bd
A habitação é constituída por dois pisos: o piso superior, onde se encontram as principais divisões da casa, e o piso inferior, destinado, principalmente, a arrumações. No piso superior, entrando pela porta principal da casa, vindos de uma escadaria bifurcada, deparamo-nos com um átrio poligonal pavimentado a mármore branco e rosa, com lambrins a toda a volta. À nossa frente está uma lareira e, mesmo no meio do compartimento, um busto do anfitrião e patrono, encimado por uma clarabóia de vitrais coloridos. Desta pende um candeeiro em ferro forjado da autoria de Lourenço Chaves de Almeida, reputado artesão conimbricense.


Existem ainda no átrio outras quatro portas que nos conduzem a diferentes espaços da casa. A primeira, a partir da esquerda, conduz-nos à sala de visitas, a qual analisaremos mais adiante, a segunda, a um corredor; a terceira pertence a uma pequena divisão que serviria de cabide, hoje transformada em arrumação, encontrando-se permanentemente fechada. A quarta porta, ou seja, a primeira porta do lado direito, é a entrada para a biblioteca com acesso ao escritório que consecutivamente tem ligação ao corredor interior.

A biblioteca possui uma lareira, coroada pelo retrato da mãe de Bissaya Barreto, Joaquina Conceição Barreto, pintado por José Contente. O espaço conta, ainda, com estantes incorporadas em todas as paredes, decoradas com pinturas em estilo neo rococó que incluem motivos bucólicos. As estantes apresentam cerca de 2.000 monografias catalogadas, com um considerável fundo de livro antigo.

Daqui passamos, então, para o escritório (no tempo do Professor bem mais desarrumado), onde existem três estantes em mogno com 976 monografias; duas delas ocupam os cantos da parede da porta de ligação com a biblioteca e, a terceira, o outro canto da parede da janela. Na secretária, podemos encontrar pousados os carimbos, o tinteiro em prata e a caneta.

Saindo pela outra porta do escritório e seguindo o corredor interior, deixamos atrás o espaço de trabalho e entramos na área privada da casa, onde vamos encontrar quatro portas à direita, uma à esquerda e outra ao fundo para o exterior. Ao transpor a primeira porta à direita, entramos no quarto principal que pertencia a Bissaya Barreto, o compartimento releva uma decoração sóbria, maioritariamente religiosa e ostenta uma cama em pau-santo estilo D. João V.

A suite esteve ligada a um quarto de vestir que, por sua vez, estava ligado a um pequeno hall interior com acesso a uma casa de banho. Ao referido corredor e ao primeiro quarto de hóspedes, consequentemente, a segunda e terceira portas da direita do corredor; a quarta e última porta da direita, tal como a única porta à esquerda, pertenciam aos restantes quartos de visitas.

Todos os compartimentos da direita, à exceção do quarto do Professor, foram unidos num único (as mutações que a casa sofreu em ordem de se tornar Casa-Museu deram-se entre 1985 e 1986 com o apoio da Fundação Medeiros e Almeida, todavia não ficaram registadas em projeto), formando a galeria principal da Casa-Museu, onde podemos encontrar uma miscelânea de peças expostas reunidas pelo Professor ao longo dos anos. Neste espaço é possível apreciar porcelanas da China, esculturas em mármore de Carrara e alabastro italiano, faiança portuguesa, porcelanas da Companhia das Índias, a colcha de seda indo-portuguesa bordada a fio de ouro e as obras de pintura de reconhecidos artistas, cujo estilo predominante é o naturalismo; a destacar o óleo sobre cobre de Josefa de Óbidos que, contrariamente a outras criações da autora, é de reduzidas dimensões e a pintura da escola francesa de Corot.

Perpendicular a este corredor, existe um outro, com quatro portas à direita e quatro à esquerda. Das quatro portas à direita, iremos ter acesso a uma casa de banho, a uma arrecadação de roupas, a um quarto de costura e engomados e às escadas para o piso inferior, respetivamente. Das portas à esquerda, a primeira leva-nos de volta ao átrio de entrada, a segunda e terceira têm acesso à sala de estar e a quarta à sala de jantar.

O quarto de arrecadação de roupas e o de costura e engomados foram também unidos e convertidos numa segunda galeria, onde estão expostas as duas telas, de dimensões significativas, de Eduardo Malta. Estas representam as antigas colónias de África e do Oriente, presentes na exposição do Mundo Português de 1940 e adquiridas, posteriormente, por Bissaya Barreto.

Ao fundo do segundo corredor, existe, ainda, a porta da copa ligada, então, com a sala de jantar. O corredor tem continuação à direita, com uma porta de cada lado e outra em frente, com acesso a umas escadas exteriores. A porta do lado esquerdo é da cozinha onde existiu também uma pequena despensa. Atualmente, constitui o gabinete da diretora da Casa-Museu, apesar de ainda se poderem ver as bancadas de pedra e os azulejos. A porta do lado esquerdo, antigo quarto da criada, é agora, uma pequena sala de reuniões.

O piso inferior é bem menos complexo. Pelo exterior, do lado norte, temos duas portas, uma delas dá acesso à sala da caldeira e outra aos compartimentos destinados às arrecadações; na primeira, estão localizados os atuais sanitários dos visitantes da Casa-Museu e a segunda mantém-se como arrumação do jardim. No lado oeste encontra-se a entrada principal da parte inferior da casa e, ao passarmos a porta, encontramo-nos na casa de entrada com uma porta para a antiga adega e casa-forte, hoje sala polivalente, onde são realizadas exposições, concertos, mostras documentais, entre outros eventos. A outra, à esquerda, encaminha-nos à antiga garrafeira que permaneceu inalterada e desempenha agora a função de sala de reuniões, com escadas de acesso ao piso superior. Existe, ainda, uma secção de reservados e arquivo não visitáveis ao público em geral.


O espaço exterior

A escultura é um elemento dominante na Casa-Museu, encontrando-se tanto no interior como no exterior. Nos jardins, prevalecem as esculturas em mármore, a fonte, o coreto e, nas traseiras da casa, a pequena estufa, tudo rodeado de um alto muro revestido a painéis de azulejos barrocos, de fabrico lisboeta.


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A Casa-Museu abre as portas ao público a 14 de Janeiro de 1986, cem anos após o nascimento de Bissaya Barreto, cumprindo, este ano, o seu 30º aniversário de funcionamento. Em 1994, também a garagem foi transformada em sala de exposições inaugurada "Galeria Joaquina Barreto Rosa"; contudo, mais recentemente, a 29 de Junho de 2009, foi aí instalado o Centro de Documentação Bissaya Barreto, onde é possível consultar tanto documentação como bibliografia concernentes à Casa-Museu e ao próprio Bissaya.

Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-A9IM9BUPQoc/TyvFjVAp_HI/AAAAAAAAAeY/
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Não foi possível colocar imagens do interior da Casa-Museu Bissaya Barreto, visto que não é permitido tirar fotos. Assim sendo, convido-vos a verem algumas delas, bem como outras informações acerca deste espaço, aqui: http://www.fbb.pt/


Escrito por Ângela Gil

2 comentários:

  1. Sou uma dos muitos bisnetos de Fiel Viterbo e terei muito gosto em ajudar a conhecer o meu bisavô e as obras que assinou. Ana Amorim Ferreira

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    1. A Casa Museu Bissaya Barreto foi o tema de um trabalho de mestrado (e o mais tarde o Portugal dos Pequenitos foi o tema da minha dissertação). No entanto consultei muita documentação disponibilizada no CDB (Centro Documentação Bissaya Barreto) e vi algumas das faturas e notas de trabalho com a 'empresa'???? de Fiel Viterbo. Tentei pesquisar sobre o trabalho de Fiel Viterbo e se fora realmente uma empresa, se existia um escritório mas nada consegui a respeito. Qualquer informação nesse sentido seria útil. Obrigada :)

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