sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Casa-Museu Bissaya Barreto - Parte 1

Existe em Coimbra, na Alameda do Jardim Botânico, no terreno contíguo ao muro da Penitenciária, junto aos famosos arcos do antigo aqueduto, a Casa-Museu de uma figura incontornável da história desta cidade e de toda a região centro. Dita casa que, a meu ver, está quase esquecida, tal como o seu morador. Na minha opinião, este espaço deveria ser visita obrigatória a quem por aqui passe (ou more).

O seu único residente foi o Professor médico-cirurgião Bissaya Barreto, cuja vida e obra são essenciais para a compreensão do delicioso espaço pessoal e, acrescentaria eu, fundamentais ao conhecimento público (principalmente dos habitantes da região, por quem ele tanto se esforçou) e dignas da admiração de todos.

Este artigo estará divido em duas partes. Nesta primeira parte, irei dar a conhecer um pouco da biografia do morador, uma vez que, infelizmente, não é fornecida aquando da visita a este local (o que considero uma grave lacuna) e me é impossível resumir a apenas um parágrafo (irá o leitor, espero eu, ficar aqui a perceber o porquê). Na segunda parte (publicada posteriormente), focar-me-ei na arquitetura e recheio da Casa-Museu que, mais uma vez, é amplamente (e vergonhosamente) descurada no ato da visita.



Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa nasceu a 29 de Outubro de 1886, em Castanheira de Pêra, distrito de Leiria, no seio de uma família de origens humildes. Era o segundo de um total de quatro filhos e o único do sexo masculino, razão essa, que o tornou naquele a quem o pai, Albino Inácio Rosa, sempre fez mais exigências.

Fonte: Bissaya Barreto, um homem de causas: fotobiografia, Coimbra: Edição da Fundação Bissaya Barreto, 2008

Quando completa treze anos de idade instala-se permanentemente em Coimbra, ingressando no Liceu Central de Coimbra e, simultaneamente, na Escola Industrial Avelar Brotero, no curso de Física e Mecânica Industrial, onde permanecerá como aluno voluntário, realizando todos os exames de primeiro e segundo anos. A 9 de julho de 1903 dá por finalizados os estudos liceais com uma classificação final de “Muito Bom com distinção”, concluindo também o curso complementar.

Ainda nesse ano, Bissaya Barreto ingressa na Universidade de Coimbra onde se inscreve em três Faculdades: Filosofia Natural, Matemática e Medicina. Em 1908, completa Filosofia Natural com uma classificação final de 18 valores e, três anos mais tarde, o Bacharelato em Medicina com 19 valores; embora tenha participado na Greve Académica de 1907, fazendo parte do grupo apelidado de “Os Intransigentes” (que ficaram impedidos de realizar os exames finais desse ano letivo), no ano seguinte, Bissaya Barreto realiza e é aprovado nos exames dos dois anos das três faculdades em que se encontrava matriculado. Desde o seu ingresso até ao ano em que concluiu os estudos, ao aluno foram atribuídos um total de 24 prémios em 36 cadeiras frequentadas.

No ano de 1915, Bissaya Barreto acabará por se doutorar em Medicina com a dissertação O Sol em Cirurgia, a respeito dos benefícios da helioterapia. No ano imediatamente a seguir, é nomeado Professor Extraordinário de Medicina da Universidade de Coimbra, em 1918 Professor Ordinário e, finalmente, a 27 de agosto de 1942, com 56 anos de idade, é nomeado Professor Catedrático de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde ainda irá exercer o ensino de cirurgia até à sua jubilação em 1956.

Enquanto médico-cirurgião, compôs um trajeto profissional marcante. Estima-se que realizasse cerca de 2.500 a 3.000 intervenções cirúrgicas por ano, de norte a sul do país, viagens realizadas de comboio ou em viatura própria e sem qualquer encargo financeiro para os seus pacientes.

Fonte: Bissaya Barreto, um homem de causas: fotobiografia, Coimbra: Edição da Fundação Bissaya Barreto, 2008

Paralelamente à vida de estudante, à prática médica e ao ensino, Bissaya Barreto revelou grande interesse pela política. Desde cedo mostrou uma forte tendência republicana e, ligada a estas convicções, está a adesão à Maçonaria (apesar de a data permanecer desconhecida), onde adotou o nome simbólico de Sain-Just. No entanto, abandona o “Grande Oriente Lusitano” a 4 de maio de 1913, de modo pacífico e com o pagamento das quotas em dia.

Não podemos deixar de referir que Bissaya Barreto atravessou o longo período do Estado Novo, chefiado por António de Oliveira Salazar, de quem era amigo íntimo e médico particular da mãe. A relação de amizade com o ditador terá tido início ainda nos tempos de estudante em Coimbra, entre 1910 e 1914, enquanto frequentavam a Universidade.

É, na verdade, no decorrer deste período que irá realizar o grosso da obra social por que ficou conhecido enquanto Presidente da Junta Geral do Distrito de Coimbra (depois Junta da Província da Beira Litoral – abrangendo as áreas do distrito de Coimbra, Aveiro, Leiria e Santarém – e posteriormente Junta Distrital de Coimbra). Durante, aproximadamente, meio século, irá criar instituições de assistência médico-social direcionadas aos grandes problemas do seu tempo: proteção da grávida e da criança, luta antituberculosa (foi pioneiro na aplicação da BCG em Portugal), luta anti lepra, assistência psiquiátrica, assistência hospitalar, luta anti sezonática e luta anti venérea.

Criou o jornal bimensal A Saúde, de distribuição gratuita (com uma tiragem de 20.000 exemplares), incutindo hábitos de higiene e fornecendo informações sobre doenças do foro psiquiátrico, lepra, alcoolismo, sífilis, tabagismo, etc. Continha, também, uma quantidade significativa de informação acerca da infância, o que, mais tarde, levou à criação de um suplemento dedicado apenas à puericultura intitulado A Saudinha. Fez ainda a distribuição de O Livro da Mãe, que ajudava e aconselhava na educação de recém-nascidos.

Enquanto Presidente da Junta, Bissaya Barreto prepara e consegue a criação de vinte e cinco Casas da Criança, quatro Casas de Educação e Trabalho, quatro Maternidades, o Portugal dos Pequenitos, uma Escola Profissional, três Colónias de Férias, um Preventório, quatro Hospitais, três Sanatórios, uma Escola Superior, um Complexo Materno-Infantil, um Centro Hospitalar, diversos Dispensários, dois Institutos, um Centro de Neurocirurgia e, finalmente, a Fundação Bissaya Barreto (FBB), da qual seria Presidente a título vitalício e que se viria a transformar na sua herdeira universal.

A FBB nasce a 26 de Novembro de 1958, ideia de um grupo dos amigos mais próximos do Professor. Hoje em dia, a Instituição tem a seu cargo dez Casas da Criança, uma Biblioteca/Ludoteca Itinerante, o Colégio Bissaya Barreto – Escola Inclusiva e o Instituto Superior Bissaya Barreto, o Centro de Estudos e Formação, o Portugal dos Pequenitos, a Casa-Museu e o Centro de Documentação, a Quinta dos Plátanos (atual sede da Fundação), o Convento do Desagravo, (unidade hoteleira desde Julho de 2000), a Quinta da Zombaria e o Edifício do Largo da Sé.

Fonte: Fundação Bissaya Barreto (imagem cedida pela mesma à autora)


No entanto, após a Revolução de 25 de Abril, a FBB é privada de vários bens.

Durante toda a sua vida, “(…) Bissaya-Barreto não se cansou de tanto fazer” mas o facto de a sua morte ter ocorrido “(…) em plena embriaguez do pós 25 de Abril, não [lhe deu] direito a funerais nacionais, nem talvez a notícia da primeira página. (…) A história esquece-se às vezes de ser grata".


(SANTOS, António de Almeida, "Intervenções: Homenagem Nacional ao Prof. Doutor Bissaya Barreto – 11 de Outubro de 1997", in Intervenções, Coimbra: Fundação Bissaya Barreto, 1998, p. 27-29.)


Apesar dos defeitos que, naturalmente, devia ter, Bissaya Barreto foi capaz de perceber e aceitar as condições socias e políticas do seu tempo, tirando o melhor delas para realizar a obra social que sempre idealizara. Pelo menos isso é algo que ninguém lhe pode tirar, já que ela está à vista e ao serviço de todos.


Escrito por Ângela Gil


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