domingo, 3 de janeiro de 2016

As Intermitências da Morte - o livro que acaba como começa

Fonte: http://www.citador.pt/images/bu02106.jpg


Todos ouviram falar, por uma ou outra razão, do incontornável génio da literatura portuguesa, o prémio Nobel com a sua forma própria de escrever - um estilo oral que dispensa a correção ortográfica. O seu espírito crítico, eu diria até polémico, e o sempre presente e fortemente marcado sarcasmo, fazem de Saramago “mestre no tratamento da língua portuguesa”. 
Em As Intermitências da Morte, o autor confronta-nos de forma simples, e ao mesmo tempo, brutal com a possibilidade de eternidade; o Homem sempre sonhou com a vida eterna, a imortalidade, o expoente máximo da Alquimia, mas quais as consequências e o preço a pagar? 
Num Portugal imaginado (embora não muito longe daquele que experienciamos), numa monarquia constitucional e com uma rainha-mãe à beira da morte, no preciso segundo da transição de um ano para o que lhe segue, a Morte, por sentimento de falta de reconhecimento, abandona este país e deixa de cumprir a razão da sua existência e “No dia seguinte ninguém morreu”. Dá-se então início à crise populacional, política e, principalmente, religiosa. 
Se ninguém morrer, estaremos para sempre presos num corpo disfuncional, necessitando continuamente de atenção e de cuidados para uma condição que não vai melhorar nem piorar; para sempre velhos, até chegar o dia em que, incontornavelmente, a população envelhecida irá superar o número de população ativa e esmagar gerações. Se ninguém morrer, o Estado terá para sempre de pagar pensões e reformas, lares e hospitais, subsídios e comparticipações e deixará de conseguir manter o equilíbrio económico que o sustém. Se ninguém morrer, a Igreja não vai mais conseguir ‘vender’ a ideia de Deus, do divino e de um céu/paraíso que nunca iremos alcançar. 
No entanto, a Morte de Saramago, sempre assexuada (até tomar forma física), imparcial e neutra é, para mim, acima de tudo, uma romântica. Esta Morte que Saramago se esforça grandemente por fazer chegar ao leitor como insensível é tudo menos isso; ela passa a maior parte dos seus dias (embora para ela também não exista o tempo) a refletir sobre a sua existência, importa-se o suficiente com o que o comum mortal pensa a seu respeito, a ponto de a levar a cessar o seu trabalho. Quando toma a decisão de findar a primeira intermitência, passa a dar notificação da sua visita com uma semana de antecedência, por carta, assinada à mão, escolha que ressente aquando da sua interação direta com o mundo. Nessa altura preferiria ter escolhido uma borboleta, “o seu nome latino é acherontia atropos. É noturna, ostenta na parte dorsal do tórax um desenho semelhante a uma caveira humana, alcança doze centímetros de envergadura e é de coloração escura, com as asas posteriores amarelas e negras. E chamam-lhe atropos, isto é, morte (…) em lugar de um vulgar carteiro que nos vem entregar uma carta, veríamos doze centímetros de borboleta adejando sobre as nossas cabeças, o anjo da escuridão exibindo as suas asas negras e amarelas, e de repente, depois de rasar o chão e traçar o círculo de onde já não sairemos, ascender verticalmente diante de nós e colocar a sua caveira diante da nossa”. 
Na viagem de descoberta que a Morte faz ao nosso mundo e ao destinatário da primeira, e única devolução da carta violeta notificativa, apercebe-se da sua própria solidão e ignorância das sensações e sentimentos daqueles que, até esse momento, ela desprezava e observava com desinteresse; é na forma romântica de um violoncelista que encontra o seu imediato oposto - a vida. E “no dia seguinte ninguém morreu.”

Escrito por Ângela Gil

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