segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Sobre o Cosplay





Recentemente deparei-me com uma notícia sobre uma equipa de televisão de um programa de variedades brasileiro que tinha sido banida das convenções de cultura popular no Brasil. A razão para tal prende-se com o facto de o conteúdo da reportagem que esta equipa fez na CCXP 2015 (Comic Con Experience, que decorre em São Paulo) ser de extremo mau gosto, desrespeito e, de uma forma geral, deploravelmente repulsivo. Resumidamente, o tal programa decidiu enviar uma equipa para o evento com o objectivo de fazer um segmento de vídeo no qual os “jornalistas” entrevistavam os participantes do evento, dando especial ênfase a cosplayers. Nada de mal nesta premissa, mas o que realmente aconteceu foi uma sucessão de entrevistas cujo objectivo era nada mais do que ridicularizar os cosplayers, através de insinuações ofensivas, perguntas estúpidas e chegando ao ponto de lamber o braço de uma cosplayer, motivo pelo qual a organização do evento, muito acertadamente, decidiu que o programa seria banido desta convenção e de outros eventos do género.
Este tema não é nada de novo, tendo existido há algum tempo um certo auto-proclamado comediante (e digo isto porque, falando por mim, não lhe consigo achar piada nenhuma) que decidiu dirigir-se ao maior evento de cultura japonesa em Portugal para fazer entrevistas cujo objectivo era nenhum mais do que ridicularizar as pessoas que lá estavam. Estas são apenas duas das situações que conheço concretamente, pois acredito que existem muitas, muitas, muitas mais.
Sinceramente, não consigo compreender o que existe de tão engraçado em gozar com cosplayers. Talvez seja de mim, e o meu sentido de humor passe ao lado deste tipo de comédia. Talvez eu simplesmente não ache piada quando gozam desnecessariamente com as pessoas. Talvez este tipo de humor seja tão erudito que a minha mente ignorante seja incapaz de o entender, ou talvez isto seja tudo apenas atitudes de mau gosto.
Um cosplayer não é “um parolo esquisito que se veste de forma estranha”, não é “um freak que anda por aí”. É alguém que tem a coragem de demonstrar a paixão que tem por uma personagem, seja ela de um jogo, de um anime, de uma série, de um filme, seja do que for, e levá-la um passo além, encarnando-a. São pessoas que não têm medo de exibir que são fãs de algo ao ponto de quererem fazer parte desse universo. Sabem costurar, pintar, moldar, colar e até programar. São orgulhosos daquilo que fazem, e entusiasmados em explicar como fizeram o fato, como o escolheram, o que significa para eles fazer um cosplay daquela personagem. A parte mais gira de uma convenção é encontrar cosplayers de personagens que também gostamos. É a evidência de que existem pessoas que partilham dos nossos gostos e com as quais podemos estar à vontade para falar de temas específicos. 
E é por isto que eu não compreendo porque é tão engraçado gozar com cosplayers. É assim tão giro ridicularizar alguém que não está a incomodar ninguém e apenas quer passar um bom bocado? É assim tão engraçado fazer graça dos gostos das pessoas? E se em vez disto começarmos a dar valor ao esforço destas pessoas e a valorizar o facto de elas serem capazes de fazer algo que muitos de nós não têm coragem para tal? Mais entrevistas decentes a cosplayers, por favor. Quero saber como é aquele rapaz conseguiu fazer uma armadura de Commander Shepard tão perfeita.


Escrito por A. B.

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