segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Eu como Pessoa

Quando me dizem que não conseguem perceber a poesia de Fernando Pessoa, não me espanto, nem me escandalizo. Na verdade, aqueles que não se identificam, não se reveem, jamais compreenderão o espólio pessoano. E mal sabem eles a sorte que têm!
Preso à infância, fase que condensa a felicidade que não mais alcançou, recorda para sempre o “sino da (…) aldeia”, onde cada balada vibra num passado inalcançável. 
Poeta singular, que se desdobra em bizarras figuras. Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos, contempla a Natureza sem a questionar; Ricardo Reis, o epicurista triste, que por receio de viver, nunca viveu realmente; Álvaro de Campos, o argonauta das sensações verdadeiras, capaz de «sentir tudo de todas as maneiras».
Numa racionalidade latejante, vive dolorosamente porque pensa. (Literalmente, deveríamos deduzir que à exceção dos seres irracionais, todos nós tal como Pessoa sofremos, afinal somos criaturas pensantes. Contudo, o esforço para aqueles que não se reconheçam nas palavras do poeta, e consequentemente não as entendem, terá de ser maior.) O sentido do ato vai mais longe, Fernando Pessoa sofre porque questiona, procura explicações, prevê fracassos e inventa medos. Ele inveja a “Ceifeira”, a mulher que vive de forma humilde, mas afasta a tristeza cantando. Assim é feliz, porque não “pensa”, ou seja, não tenta compreender a sua condição. Não desanima nem culpa a si ou aos outros pela sua situação. Também em “Gato que brincas na rua”, o poeta confirma a sua cobiça por quem é feliz “porque é assim”. 
Aos receosos e aos desiludidos, desafio que descubram e redescubram a poesia pessoana, respetivamente. Se porventura, aquando da leitura virem o vosso reflexo, não se alarmem, saibam que é do caos que os génios são feitos. 



Escrito por Mariana Pinto

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