quarta-feira, 11 de abril de 2018

O problema dos aerossóis




Se querem sentir «a boa vibe, o feeling positivo a pairar no ar» (eu sei, aquele clássico de Ângelo César Firmino, a.k.a Boss AC, que passou, algures, nos momentos Morangos com Açúcar das nossas vidas), não venham ter comigo. Sim, eu sou a rainha do drama, aquela pessimista incurável (não me tragam incensos, carrinhas pão de forma ou tiras florais para a cabeça, porque a minha alma é mais a puxar para o gótico), a pessoa que conta sempre com o pior para, em caso de ocorrência, saber lidar com ele:

- O mundo acabou!!!! Os oceanos estão a invadir a terra, os vulcões entraram em erupção, os edifícios começaram a ruir, as pessoas encontram-se soterradas, há explosões e tornados por toda a parte,!!
- Oh, grande novidade. Já estava a contar com isso... - Digo eu, enquanto bebo o meu último chá de frutos vermelhos e espero pela mulher da gadanha. 

Eu, que sempre gostei de tudo certinho, trigo limpo, farinha amparo, percebo, um dia, que a vida me diz: 

- Ai é? Gostas de tudo perfeitinho, sem pontos dúbios ou falhanços de magnitude histórica? Então, vou-te dar um presente vai cair muito bem com esse teu pensamento! 

E foi assim que a vida me orvalhou com um aerossol que contaminou o meu ser: a ansiedade. 


Eu, que gosto de tudo perfeitinho, comecei a duvidar de cada passo que dou, refaço e desfaço o passo, analiso e reanaliso, escrevo e rescrevo. O botão 'backspace'' passou a ser o meu melhor amigo, contudo é angustiante não existir essa tecla no mundo real. Era ótimo poder desfazer algumas conversas, gestos, momentos, deslocações ou mesmo certos períodos de tempo. Era um alívio poder fazer com ''nada disto (seja lá o que for) tivesse acontecido'' e avançar, agora com mais sabedoria e experiência, com pé e mira certeiros, sem nódoas em pano branco. 


Regra geral, não tenho muita simpatia por pessoas. Não ao ponto de me tornar o próximo Jack, o estripador, todavia a minha energia baixa quando estou rodeada de aglomerados de gente, barulhos dispensáveis, atitudes estrambóticas ou conversas envernizadas, frívolas e superficiais. Fico com sono, dentro da minha cabeça balança-se a Miley (sentada numa bola de destruição gigante, a partir-me as gavetas todas) e a minha paciência fica nauseada. 


A exposição pública tornou-se numa de espécie camião TIR. E eu não tenho carta de pesados. Boca seca, mãos trémulas (tão trémulas que quando a colher chega à boca, já vai desprovida de sopa*)  e calor, muito calor. Como diz a avó de uma amiga minha, fica tudo muito ''queimoso''. 


*obrigada por esta laracha que tão bem proferiste ontem, irmã. 


Medo de não conseguir realizar tarefas que, para os demais, são básicas. Lembram-se daquele jogo das naves espaciais do Nokia 3310? No final de cada nível aparecia sempre um mostro que tínhamos de derrotar, atirando o dobro das munições. Por algum motivo, esse monstro ainda mora, algures, num dos quartos de hóspedes do meu cérebro. 


Por outro lado, imaginem lá que estão muito bem, a admirar a beleza natural que têm à vossa frente, mas, repentinamente, pousa uma mosca na vossa mão. Essa mosca completamente aleatória e inocente orienta a memória individual a longo prazo para um momento embaraçoso, confrangedor e corrosivo do passado. Que agradável. 


Bom, a pouco e pouco vou aprendendo a viver com estes singelos entraves que foram adicionados ao meu regular quotidiano. Porque, já sabem como é, se não a podes vencer, junta-te a ela, porém sempre desconfiando. Não me sujem é os tapetes do carro! Migalhinhas, coisinhas miúdas, pedrinhas, ervinhas... Fazem-me confusão. O ideal era mesmo andarem com sacos de plástico nos pés. Na verdade, é indiferente se sujam ou não, ou se foi só uma pedrinha ou uma migalhinha porque, quando chegar a casa, vou pegar na invenção mais extraordinária dos últimos tempos - o aspirador portátil - e sorver tudo até ao último ácaro. Não se preocupem, o problema não são vocês, sou eu. 





Escrito por Susana Ferreira.

terça-feira, 27 de março de 2018

1986, a série que faz pensar 2018





Estou sempre a dizer que gostava de ter vivido nos anos 80. Provavelmente não sobreviveria o tempo necessário para contar a história, uma vez que as mulheres ainda eram um ser doméstico. Não me considero doméstica o suficiente para apresentar, todos os dias, uma travessa catita de uma carne ou de um peixe supimpas à mesa familiar, como faria Maria de Lurdes. Por outro lado, aturar um marido autoritário e doente pela direita política, como o senhor Fernando, iria culminar num divórcio ao terceiro dia, conforme as escrituras (fica já aquela nota Pascal). 


Tirando os machismos e a democracia em construção, noto que, em termos de valores, se respirava um bocadinho melhor. As pessoas não eram permissivas, lutavam pelo o que acreditavam ser o correto. Hoje, o estômago anda revirado dos sapos a mais que as bocas comem, ou para não perder o emprego, ou para manter a casa com uma renda jeitosa, ou até para não perder o casamento, porque a solidão é pior do que um cônjuge que dá para os gastos. 


Nos anos 80 não havia redes sociais. As pessoas esforçavam-se para estar com os amigos, com os namorados e com a família. Sobretudo, havia diálogos profícuos. Mal ou bem, as pessoas comunicavam em 4D e aprendiam com as opiniões umas das outras. Até o Eduardo e o senhor Fernando se esforçavam para discutir em direto e em tempo real. O conhecimento era adquirido por meios físicos (um livro era um livro, não era um eBook, um disco era um disco, não era uma faixa disponível em plataformas digitais, um filme era um filme... Visto no cinema ou através das cassetes dos clubes de vídeo, não era um ficheiro AVI disponível em 1080p) e os passatempos incentivavam a descoberta e a formação de talentos (a criação de uma rádio pirata, a produção de música e a difusão de ensinamentos acerca do universo e da política). Hoje, as pessoas esqueceram os seus sonhos e a sua vocação para ir para um curso superior que dê dinheiro futuramente e que lhes assegure uma vida confortável e hedónica. 


Nos anos 80, ainda havia espaço para pensar sobre a informação que ia chegando pelos jornais, pelo cinema e pelos livros. Hoje, apesar da quantidade de informação com que somos bombardeados, somos fúteis, mesquinhos e profundamente superficiais. A fartura enjoa e, ao contrário do que seria esperado, não somos mais inteligentes nem mais bem formados. Apegamo-nos a coisas insignificantes e disparamos ódio e frustração nos comentários das redes sociais. 


Nos anos 80, as pessoas vestiam cores garridas, os penteados eram volumosos, os óculos ocupavam grande parte do rosto, a maquilhagem era extravagante e as roupas eram mais largas. Não era crime misturar rosa com vermelho, ganga com ganga ou preto com preto e mais preto. Hoje, a polícia da moda está cada vez mais atenta e as almas mais desleixadas (as que não vestem cores nude, não estão na tendência ou não optam por algo mais ''edgy'' mas não tão ''edgy'' assim) levam com um grande meme na internet. 


Nos anos 80, gostava de saber se o senhor Fernando sobreviveu aos mandatos do bochechas, se a Alice suavizou o mau feitio do Eduardo, se o Tiago e a Marta superaram as suas diferenças, se a Marta seguiu o seu sonho, se a Patrícia ainda tem a alma negra, se o Sérgio já perdeu a virgindade, se o Gonçalo deixou de ser cabecinha de alho chocho, se o Tó continuou com a Boa Onda e se a Dona Conceição deixou de colocar o comando ao pé da televisão. Em 2018, espero que o Nuno Markl dê continuidade a esta história que me fez rir e acreditar num presente mais reivindicado e menos nude. 



Escrito por Susana Ferreira.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Michael, o anti-Narciso


Resultado de uma educação rigorosa, vendo-se privado das brincadeiras típicas da idade, Michael passou a sua vida a dedicar-se exclusivamente à carreira que consolidou a partir da formação do grupo The Jackson 5.


Fonte: http://i.vimeocdn.com/video/461850961_1280x720.jpg



A sofrer desde criança de vitiligo, doença que lhe causava manchas na pele,  viu o seu corpo a ganhar diferentes tonalidades.

Obrigado a partilhar o crescimento com os irmãos, teve de ignorar os seus envolvimentos furtivos no quarto que com eles partilhava.

Quisera a sorte que fosse não o melhor cantor do grupo mais o que melhor se sabia expressar através da dança, valendo-lhe o lugar de destaque.


Fonte: https://cdn-images-1.medium.com/max/480/1*2Ys4WLgXbnk90LBE7-qxpA.gif


A alegria e à vontade no palco ocultariam a melancolia de não viver como as outras crianças e o trauma de um nariz que o pai lhe fez crer ser demasiado grande e por tal não ter sido influência da genética paterna.



Aquando da ribalta, já como cantor a solo, decide rodear-se da meninice que nunca teve e constrói a "Neverland". Um sítio mágico, bem ao lado da sua mansão, onde permitiu que grupos de crianças enfermas desfrutem de um dia de pura diversão.


Fonte: http://dasartes.com/wp-content/uploads/2017/11/michael-jackson-1160x770.jpg



A sua causa era essa, assegurar cuidados a crianças que deles necessitassem, e por isso muita foi a ajuda disponibilizada a instituições e a casos particulares.


Fonte: http://3.bp.blogspot.com/WUGxu7Mt6xE/UTer8P1UJQI/AAAAAAAAq9I/gjQX4mjIX8g/s1600/michael
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Casado pela primeira vez com Lisa Marie Presley, e na sequência das acusações de abuso sexual, o matrimónio tem fim um ano depois e especula-se que se tratasse de uma relação planeada e vivida imaturamente.

Sempre confrontado com a questão da sexualidade, reprime-se, sentindo-se a vergonha em abordar o tema, o que causa a dúvida em volta da sua virgindade.

O mesmo parece confirmar o facto de ter dois filhos de uma mulher que o auxiliou como enfermeira e ainda um terceiro, de mãe incógnita, colocando-se em causa a sua intervenção física nas conceções.

Fonte: http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2009/06/29/article-0-0583B1CD000005DC-754_468x411.jpg


A sua ligação com as crianças é por ele explicada também como reflexo da ausência da infância, no entanto as relações estabelecidas com aquelas que visitavam o seu parque de diversões particular levantaram suspeitas.

Chocado com elas e frizando sempre o seu extremo amor e afeição pelas crianças e incapacidade de as magoar, foi levado a julgamento e acabou por pagar uma fiança de modo a por termo à situação, referindo que o mesmo não confessava a sua culpa, simplesmente acabaria com a polémica.

O tema que constantemente o fazia capa de revistas e motivo de paródia era a sua diferenciada aparência. Rejeitando as inúmeras cirurgias que lhe apontavam, referia que a tonalidade clara se dava à doença de pele de que padecia e o nariz teria sido corrigido pelo facto de tê-lo partido numa das suas atuações.

É fácil acreditar na pessoa que contraria todas as especulações à sua volta, em algumas torna-se inevitável crer e descrer: ele não dormia numa cama de oxigénio para se manter jovem, ele não comprou os ossos do falecido "Homem Elefante". Contudo, sim a sua imagem só se justifica como fruto de muitas cirurgias, as maçãs do rosto estão alteradas, ou seja, as operações não resultam apenas da correção feita ao nariz.


Fonte: https://www.capitalfm.co.ke/lifestyle/files/2016/08/Michael-Jackson.jpg






Mas a verdade é que tudo o resto toca na verdade, porque assistimos à defesa de um ser tão frágil física como psicologicamente, que apesar de negar, se quis afastar da aparência inicial, que se tornou um trauma.

Um homem reprimido, o anti-Narciso que jamais se apaixonou por si mesmo ao ver-se refletido e o eterno Peter Pan que sorria e falava de forma ingénua e que mesmo enquanto adulto tinha de ser entretido pela cozinheira, que só dessa forma conseguia que ele se alimentasse.


Fontes: https://i.pinimg.com/564x/75/d9/cf/75d9cfc93df9a633ec1770d64d4de88a--archangel-michael-michael-jackson.jpg
http://www.grioo.com/images/rubriques/7/21020.jpg




Escrito por Mariana Pinto